quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dr. Luiz Tavares e Mequinho

Entrevista com Dr. Luiz Tavares!
Julho, 14, do ano de 1976
Publicado no blog "Reino de Caíssa" em junho de 2017

Dr; Luiz Tavares (E) e Mequinho (D)


Mequinho perdeu quatro quilos durante o Torneio Interzonal de Manila - Filipinas, em 1976. que conseguiu vencer. Chegou a ser ameaçado, inclusive de agressão física pelo norte-americano Walter Browne, sobre quem teve sua melhor vitória no torneio. Em certo momento das disputas houve falta de luz no salão dos jogos e o americano voltou a dar trabalho ao árbitro Florêncio Campomanes.

Tudo isso foi contado no Hotel Tambaú pelo ex-presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, o médico pernambucano Luiz Tavares da Silva, ao enxadrista Herbert Carvalho, um dos fortes participantes do 43º Campeonato Brasileiro de Xadrez e enviado especial da Folha de São Paulo.

Esta entrevista teve direito de publicação concedidos a Fernando Melo (colunista de A União) e o jornal passa a divulgá-la em sua quase totalidade. 

FILIPINAS : Um torneio de muita garra
Henrique da Costa Mecking
"Mequinho"

Pernambucano de Recife e médico de profissão, Luis Tavares da Silva é um doa admiradores de Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, cuja fama no mundo internacional do xadrez ele ajudou a criar, Neste momento ele está no Hotel Tambaú assistindo ao Campeonato Brasileiro de Xadrez e descansando da longa viagem de 35 horas de regresso de Manilla onde esteve até o final de Torneio Interzonal.

O dr. Tavares, que já foi campeão brasileiro e presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, acompanhou o desenvolvimento da carreira do único Grande Mestre brasileiro desde o seu despontar, em 1965, quando ainda um garoto de apenas 13 anos, bastante magro e tão pequeno que quase não podia alcançar o tabuleiro, venceu o campeão nacional daquele ano.

A partir daí, Tavares teve a certeza de que aquele garoto tímido, vindo do interior do Rio Grande do Sul, chegaria a ser campeão mundial de xadrez. Foi então que, juntamente com um grupo de enxadristas da época, passou a atuar para propiciar ao futuro Grande Mestre as oportunidades necessárias ao desenvolvimento de todo aquele talento em potencial. 

Desde o princípio sempre acompanhou Mequinho em todos os Torneios Internacionais de importância, como ele mesmo conta: "A primeira vez foi na Tunísia, em Sousse, onde em 1967 ele jogou o primeiro Interzonal. Depois fomos por duas vezes a Hastings, depois em Lugano e em Augusta e 1974 quando ele foi derrotado por Korchnoi. Agora houve esta viagem a Manilla."

Tavares diz que sua admiração por Mequinho surgiu ao observar seu extraordinário talento, principalmente nas partidas rápidas, notando em seguida seu senso posicional e comportamento com relação ao xadrez e, enfim, sua dedicação e autocontrole na perseguição dos objetivos.


Dr. Luiz Tavares, o anjo da guarda de Mequinho
"Acho que nenhum outro jogador, com a possível exceção de Bobby Fischer, se impõe uma disciplina tão férrea como Mecking", assegura Tavares, ao explicar a disciplina de Mequinho como um dos fatores mais importantes de sua vitória em Manilla. 

"Enquanto outros jogadores, como Mariotti ou Gheorghiu e até mesmo os soviéticos, eram displicentes e dispersivos, Mequinho empenhava todas as suas energias nas partidas, com várias horas de preparação diária dos lances de abertura jogados por seus adversários" - relatou.

Em seguida Tavares descreve a rotina de Mequinho em Manilla:
- Logo pela manhã, após o café, ele pegava o boletim com as partidas da rodada anterior e estudava atentamente todos os jogos. Depois reproduzia, de acordo com os livros, todas as partidas jogadas por seus adversários nos últimos 10 anos. Pontualmente, as 11 horas, almoçava seguindo dieta especial que quase sempre consistia em bife com arroz, completamente diferente da alimentação dos demais jogadores que se deliciavam com as comidas típicas das cozinha filipina, notadamente frutos do mar.

Durante todo o Torneio -  informa Tavares - Mequinho perdeu cerca de quatro quilos.Após o almoço ele dava uma caminhada de uma hora, sempre sozinho, pelos parques e jardins ao redor do Hotel. Enquanto Spassky (que jogava tênis) e os demais jogadores se divertiam o dia de Mequinho não reservava qualquer momento para o seu lazer pessoal. Ainda pela manhã, fazia por cerca de uma hora, ginástica pesada, para depois estudar as análises que seu segundo, o carioca Márcio Miranda preparava. Seu único momento de descontração era à noite. Depois do jogo, durante o jantar, ele estava sempre alegre, conversando bastante, mas nunca sobre a partida que acabara de jogar ou sobre xadrez, de maneira geral.

Mequuinho em 1976

interessantes da preparação de Mequinho foram contados por Tavares:

Mequinho foi o primeiro jogador a chegar a Manilla, com bastante antecedência ao  início do Torneio e a primeira coisa que fez foi vedar totalmente a janela de seu quarto com um papel preto, usado nos laboratórios fotográficos, para que não entrasse qualquer réstia de luz que lhe perturbasse o sono. Seu quarto era tão protegido contra luz e ruídos, que tive receio de que isto pudesse lhe abalar a saúde. 

Tavares revelou ainda que, na solenidade de abertura para o emparceiramento, quando é praxe cada jogador indicar uma pessoa para o Tribunal de Apelação do Torneio, a pessoa indicada por Spassky foi vetada pelos próprios dirigentes da Federação Soviética. "Outra coisa que pouca gente sabe no Ocidente é de um dos grandes participantes, Yuri Balashov, é o primeiro Grande Mestre formado pela Faculdade de Xadrez que existe em Moscou", informou Tavares.

E relatou ainda: "Normalmente, em um torneio de xadrez o ambiente entre os jogadores é e grande cordialidade, já que se trata de um esporte de intelectuais. Mas, infelizmente, nem tudo foi assim em Manilla. Na partida que Mequinho jogou contra o norte-americano Walter Browne, considerada sua melhor vitória no torneio, houve muita guerra de nervo por parte do americano, o que provocou inclusive um protesto oficial de Mequinho ao árbitro Florêncio Campomanes que, com muita habilidade conseguiu contornar o problema".

"O que aconteceu" - explica - "é que dias antes , Mequinho adiara por motivo de doença, sua partida com o romeno Gheorgiu, e Browne, suspeitando da veracidade de enfermidade do brasileiro, chegou a ameaçá-lo de agressão física, caso isso viesse a prejudicá-lo no Torneio. Entretanto, esse incidente, que deve ter ocorrido devido em temperamento muito nervoso de Browne (que já teve problemas desta natureza, neste e noutros torneios anteriores) foi completamente dominado por Campomanes, que fez com que os dois se dessem as mãos e esquecessem as mágoas. Dias depois, conversavam animadamente sobre variantes, no ônibus que conduzia os jogadores do Hotel ao salão de jogos".


Falando sobre as características técnicas da atuação de Mequinho, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Xadrez ressaltou a habilidade com que ele se conduziu no apuro de tempo "como excelente jogador rápido que é e sempre foi, principalmente nas partidas com Browne e Panno, quando jogou cerca de 20 lances em um minuto e pouco".

Disse ainda que com relação ao sorteio inicial dos participantes, Mequinho não ficou satisfeito pois havia sido emparceirado com as peças brancas contra os jogadores mais fortes e com as pretas contra os mais fracos, "o que, na sua opinião, lhe era desfavorável, pois preferia jogar de brancas com os fracos, quando ganharia com certeza e de pretas com os mais fortes, pois assim não perderia".


Florêncio Campomanes que foi eleito mais tarde preesidentee da FIDE
Revela o médico Luiz Tavares que o árbitro Campomanes teve outra situação difícil. novamente contra o americano Browne. 

De repente, como acontece na minha terra, o Recife, a luz apagou-se exatamente no momento em que a partida entre Browne e Polugayevski chevava ao momento decisivo. Em outras partidas as setas dos relógios também estavam suspensas. Aí então, foi ligado o gerador de emergência que não foi considerado por Browne satisfatório o suficiente para continuar o jogo. Então, começou a gritar, protestanto; Campomanes tentou acalmá-lo, já que nada mais podia fazer, pois este detalhe não estava previsto pelo regulamento. Nada adiantou, até que ele teve de gritar para o norte-americano se sentar e continuar jogando, ao que finalmente foi obedecido.

Tavares conta que a figura do árbitro Campomanes muito o impressionou e que este, inclusive, está muito cotado atualmente para substituir o holandês Max Euwe na Presidência da Federação Internacional de Xadrez.


Mequinho em 2016

domingo, 12 de fevereiro de 2017

o oportunismo de Alekhine

A Escola Soviética do Xadrez, o trágico oportunismo de Alekhine, o Ogro de Baku e o professor Carlos Bellino

Escrito por  Antonio Monteiro

Há já algum tempo o professor de filosofia Carlos Bellino sugeriu-me que escrevesse um artigo sobre o xadrez e a política. O tempo foi passando e nada. 

Cheguei mesmo a pensar que o professor tinha-se esquecido da sua sugestão. Mas eis que numa das suas recentes viagens a Portugal me traz o livro: “A Vida imita o Xadrez” da autoria de Garry Kasparov. ‘Bom, a oferta de um livro por si só não obrigado a nada. Muito provavelmente ele terá o direito de esperar que eu leia-lhe o livro, mais nada. Até porque ele nem é o autor’, pensei com os meus botões. Esta minha opinião desfez-se como água na água, quando, para certificar-me de um pormenor, reabri o livro de Kasparov e, à luz de uma vela subitamente antiga, reli a dedicatória: “Para o António Monteiro, com amizade e esperando que este livro te traga inspiração para produzires mais e novas prosas sobre o xadrez e a política”. ‘Mil macacos me mordam se isto aqui não é uma intimidação, ainda que escrita com letrinha de filósofo’. Por isso, caro Bellino, aqui estou a cumprir o prometido.

Sinceramente nunca tive especial interesse pelo tema, o que não significa que ignoro completamente toda a prosa que desde o “Match do Século”, disputado em 1972, em Reykjavík, se tem escrito sobre as múltiplas imbricações entre o xadrez e a política. Para mim xadrez é xadrez, política é política e vida é vida. Proclamar, como pretende Kasparov, que a vida imita o xadrez, é esquecer uma verdade fundamental: o xadrez não passa de um jogo, aliás, de tabuleiro, embora possa ser colocado no mesmo patamar com a arte e o desporto. A ideia que o xadrez imita a vida não é nova e antigos campeões mundiais do passado estabeleceram esta ligação – com resultados trágicos como adiante veremos. Por razões de espaço concentremo-nos apenas em dois ex-campeões mundiais: Alexander Alekhine e Bobby Fischer. 

Os dois estavam convencidos de que tanto na vida como no xadrez Deus colocou um lance genial que permite aos simples mortais sair de qualquer situação por mais precária e desesperada que seja. O segredo está apenas em encontrá-lo. Ao fim e ao cabo a um mestre de xadrez tudo é permitido, conquanto ele encontre a jogada redentora na devida altura. Por isso Alekhine não se coibiu de colaborar com os nazistas durante a 2ª Guerra Mundial e de escrever artigos anti-semitas defendendo a tese que os judeus jogavam um xadrez defensivo, em que contava apenas o lucro material. Reivindicou que nunca houve um verdadeiro artista de xadrez de origem judaica e que só em solo nazi se podia respirar o xadrez puro. Alekhine incluiu nos representantes do xadrez ariano os nomes de Philidor, Labourdonnais, Anderssen, Morphy, Tchigorin, Pillsbury, Marshall, Capablanca, Bogoljubov, Euwe e Keres. Para jogadores judeus, havia somente Steinitz e Lasker. Quando este faleceu em 1941, Alekhine escreveu que tinha desaparecido o último campeão do mundo judeu. 

Apesar de toda a sua genialidade – e ele sempre será sempre lembrado pelas suas combinações antológicas, que ainda despertam admiração entre os melhores jogadores da actualidade – Alekhine, como homem e xadrezista, era um camaleão e um oportunista do piorio. A capacidade inata de se metamorfosear e de entrar na pele do seu adversário e derrotá-lo com suas próprias armas valeu-lhe espectaculares triunfos e mesmo a conquista do campeonato do mundo contra Capablanca. Quando o cubano deu-se conta de que Alekhine tinha estudado todas as suas partidas e estava a jogar contra si próprio, já era tarde e a sua heroica resistência apenas lhe aumentou a agonia: depois de quase dois meses e 34 partidas o até então tido como invencível foi destronado. Capablanca pediu imediatamente um match-revanche, mas o oportunista Alekhine preferiu dar primazia a jogadores que não representavam nenhum perigo para ele: escolheu Bogoljubow em duas oportunidades, vencendo ambos os matches folgadamente, em 1929 e 1934. A coisa pôs-se feia quando em 1935 enfrentou o relativamente desconhecido Max Euwe – e foi estrondosamente derrotado. O gentleman holandês aceitou logo um match-revanche no qual foi surpreendentemente derrotado. É que chocado com a derrota, sem ninguém se dar conta, nem o próprio Euwe, o mestre russo entrou num treinamento rigoroso e abstémico e recuperou o título dois anos depois. Alekhine tornou-se assim no primeiro campeão a conseguir recuperar o título num match-revanche. Capablanca não teve a mesma sorte, porque Alekhine cortou relações com ele e evitava sistematicamente participar em torneios em que o ex-campeão era convidado. Os dois mestres só se encontram 9 anos depois, em Nottingham, Inglaterra. Capablanca vence o torneio e derrota o seu arqui-rival no confronto directo. 

Devido aos artigos anti-semitas, e embora tecnicamente campeão do mundo, Alekhine não foi convidado para nenhum torneio de xadrez depois da 2ª Guerra Mundial. Em Março de 1946 morreu subitamente num hotel em Estoril, quando esperava pela concretização de um match redentor contra Botvinik. 

Escorraçado pela comunidade xadrezística internacional, Alekhine só encontrou guarida no Portugal cinzento e salazarista, onde faleceu só, empobrecido e odiado. A Federação Portuguesa de Xadrez encomendou o funeral, ao qual menos de 12 pessoas compareceram. Alekhine quase tinha encontrado o lance genial para se salvar – o match contra Botvinik. De facto, um dia após a sua morte uma carta chegou convidando-o a Inglaterra para o match, mas já era tarde. Enfim, um trágico oportunista. Desgraçadamente a vida é real, desgraçadamente ou felizmente o xadrez é apenas um jogo.

Ps: O Prof. Carlos Bellino regressou há já algum tempo de Portugal e voltou a surpreender-me com a oferta de mais um livro, neste caso os “Fundamentos do Xadrez”, da autoria de José Raúl Capablanca. Passe a redundância, “Fundamentos do Xadrez” é um livro fundamental da literatura xadrezística e de leitura obrigatória até para não-praticantes. Dentro em breve voltarei ao livro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 793 de Cabo Verde, 8 de Fevereiro de 2017.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CULTURA DO XADREZ

 
 Uma história cultural do xadrez

Celso Castro1





O xadrez é um jogo especial por combinar várias características. Em primeiro lugar, o acaso não existe no xadrez: ninguém ganha uma partida porque “teve sorte”, nem perde porque “teve azar”. Trata-se de um jogo movido apenas pelo raciocínio dos dois jogadores, que são os únicos responsáveis pelo resultado. Nesse sentido, pode ser dito que trata-se de um jogo perfeitamente existencialista ¾ nele estamos, como numa expressão de Sartre, “sós e sem desculpas”.


Em segundo lugar, o xadrez é de extrema complexidade. Jogado num tabuleiro de 64 casas, cada jogador tem inicialmente 32 peças de seis tipos, cada qual com importância, movimentos e possibilidades de captura específicos. Apenas os quatro primeiros lances podem produzir cerca de 72 mil diferentes posições. Os dez primeiros lances podem ser jogados de cerca de 170 seguido de 27 zeros maneiras diferentes. Trata-se, portanto, de um jogo de possibilidades inesgotáveis.

Em terceiro lugar, o xadrez é especial por sua antiguidade histórica.2 Sua origem é controversa. Alguns pesquisadores acham que surgiu no Egito ou na China, mas geralmente considera-se que o xadrez teve origem num jogo com o nome sânscrito de chaturanga, que já existia na região do Ganges, na Índia, no início do século VII. É possível que tenha sido inventado vários séculos antes. De qualquer forma, é jogado, com poucas variações importantes, por mais de mil anos.


Outra característica notável do xadrez é que as partidas podem ser registradas e posteriormente reproduzidas, lance a lance. Com isso, o acervo histórico de partidas  vai sendo sempre aumentado -- e, como todo acervo, o do xadrez possibilita a existência de uma memória sobre o jogo que é uma fonte de aprendizagem e prazer estético. Existe, por exemplo, um problema de xadrez composto por um califa árabe chamado Mutasin Billah em 840 d.C. Temos também o registro de uma partida jogada em 940 d. C. e vencida por um grande jogador árabe de origem turca chamado As Suli (c.880-946), que encantava a corte em Bagdá no início do século X. Sobre esse jogador chegou até nós o comentário de um homem importante da época que, perguntado sobre a beleza das flores de um determinado jardim, respondeu que a forma de As Suli jogar xadrez -- isto é, seu estilo -- era mais bonita do que aquele jardim e todas suas flores. O fato de podermos reproduzir essa partida e igualmente sentir seu encanto e beleza preservados por 1050 anos é uma característica que confere ao xadrez um lugar único entre todos os jogos.


Finalmente, o xadrez é um jogo especial por sua extraordinária difusão através das mais variadas culturas e civilizações. Esse é um ponto sobre o qual gostaria de me deter com mais atenção. Como disse, no início do século VII existia na Índia um jogo chamado chaturanga, considerado precursor direto do xadrez. Esse jogo foi disseminado através do continente asiático principalmente pelos budistas, e adaptado ao acervo cultural de diversos países, como China, Coréia e Japão.

A difusão para o Oeste é razoavelmente bem documentada. O jogo alcançou a Pérsia por volta de 625, recebendo o nome de chatrang. Após a conquista árabe da Pérsia (631-51), o jogo, agora batizado com o nome árabe shatranj, conheceu uma época de grande florescimento. O islamismo proibia os jogos de azar, mas o shatranj era considerado um jogo de guerra, e, por isso, permitido. Vários califas tornaram-se aficcionados do jogo, e os melhores jogadores recebiam dinheiro para jogar, ensinar e escrever livros.


O shatranj foi levado para a Rússia a partir do século IX, principalmente através da rota de comércio Mar Cáspio-Volga. Cristãos bizantinos difundiram o jogo pelos Bálcãs e Vikings fizeram o mesmo na região do Báltico, tudo isso num período anterior à conquista mongol de 1223. Os mongóis também apreciaram o jogo, especialmente  na corte do imperador Tamerlão. O shatranj chegou à Europa Ocidental entre os séculos VIII e X por três rotas: inicialmente com os invasores mouros da Península Ibérica; depois, através do Império Bizantino no Leste, e, finalmente, com os  sarracenos (invasores islâmicos da Sicília). Por volta do ano 1000 o jogo já era amplamente conhecido na Europa.


A Igreja a princípio se opôs ao jogo, possivelmente devido ao uso freqüente de apostas. Surgiram alguns editos proibindo o clero de jogar, notadamente um do cardeal Damiani em 1061. Entretanto, por volta do século XIII essa proibição foi relaxada ou esquecida, e o xadrez passou a gozar de popularidade entre várias ordens religiosas. Alguns de seus membros inclusive usaram o xadrez em alegorias conhecidas como “moralidades”, comuns na literatura européia da Idade Média, e que tentavam dar uma explicação simbólica ou alegórica do jogo, encontrar paralelos entre a organização da vida e atividade humanas e o xadrez. Essas alegorias geralmente consideravam o jogo como emblemático da condição social da época.

Vejamos um exemplo dessas “moralidades”. A mais antiga conhecida é da metade do século XIII, e ficou conhecida como “moralidade de Inocêncio”, por ter sido atribuída ao papa Inocêncio III (papa entre 1198 e 1216).Ao que tudo indica,  no entanto, foi obra de um monge galês. O texto diz o seguinte:3

“Este mundo todo é como um tabuleiro de xadrez: uma casa é branca, outra  casa é preta, e assim representa o duplo estado de vida ou de morte, de graça ou pecado. A família que habita esse tabuleiro é formada pelos homens deste mundo, que
-- tal como as peças saídas todas da mesma bolsa -- procedem todos de um só ventre materno. E, tal como as peças, assumem seus postos nos diferentes lugares deste mundo, cada um com sua própria denominação.    O primeiro é o Rei, depois a Rainha, em terceiro lugar a Torre, em quarto o Cavalo, em quinto o Bispo e em sexto o Peão. E o caráter do jogo é tal que um toma o outro e, com o jogo terminado, assim como todos tinham saído da mesma bolsa, a ela voltam. E então já não há diferença entre o Rei e o pobre Peão, pois acabam do mesmo modo o rico e o pobre. E com  freqüência acontece que, quando se devolvem as peças, o Rei fica por baixo, no fundo do saco; e assim também acontece com os grandes que ao sair deste mundo são sepultados no inferno; enquanto os pobres são levados ao seio de Abraão.”


Temos aqui uma alegoria bastante explícita do nascimento e morte como comuns a toda a humanidade. Essa imagem foi muito popular através de toda a Idade Média, e mesmo depois. É mencionada, por exemplo, no Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Aliás, há muitas referências ao xadrez em fontes literárias medievais, principalmente romances. Há passagens sobre reis resolvendo questões de Estado através do jogo, condenados jogando enquanto esperavam a execução, tabuleiros mágicos feitos pelo mago Merlin etc. Rabelais tem uma longa descrição de um jogo de “xadrez vivo”, isto é, com pessoas ocupando o lugar de peças. Mas voltemos à “moralidade”, que prossegue descrevendo agora o movimento das peças:

“A Rainha move-se e toma [isto é, captura peças adversárias] na diagonal [essa é uma regra antiga], de modo torto, pois a mulher é tão cobiçosa que só toma tortamente, por obra da rapina e da injustiça. A Torre é o justiceiro que percorre toda a terra em linha reta como sinal da justiça com que tudo julga e de que por nada deve  seu ofício corromper-se. [...] O movimento do Cavaleiro é composição de reto e torto. O reto, representando o direito que tem, em justiça, como senhor da propriedade, de cobrar impostos e de impor justas penas conforme o exija o delito; representando as injustas extorsões a que submete os súditos. [...] Os Bispos movem-se oblíqua e tortuosamente duas casas [outra regra de movimento antiga] porque muitos prelados  se pervertem pelo ódio, amor, presentes, ou favores para não corrigir os delinqüentes nem ladrar contra os vícios, tratando os pecados como um terreno arrendado por uma taxa anual. E assim enriquecem o diabo, fomentando os vícios ao invés de extirpá-los se tornam procuradores do diabo. [Observar o anticlericalismo do texto!] Os Peões são os pobres que andam uma casa em linha reta, pois enquanto o pobre permanece na sua simplicidade vive honestamente, mas, para tomar, se corrompe e o faz tortamente, pois pela cobiça se bens ou honras, sai do reto caminho com falsos juramentos, adulações ou mentiras.”


Finalmente, há uma passagem interessante sobre o desfecho do jogo:
  
“O diabo diz: xeque! incitando ao mal e ferindo com o dardo do pecado. E se o atingido não sai rapidamente dizendo: livre!, pela penitência e compunção do coração, o diabo lhe diz: mate!, levando sua alma ao inferno de onde não se poderá livrar de modo algum.”


Pulei propositalmente a parte referente aos movimentos do Rei, porque aqui há um ponto importante. Deve ter ficado claro que o princípio subjacente aos movimentos das peças, para o autor da “moralidade”, é que um movimento reto simboliza um movimento/ação moralmente correto, justo; um torto ou na diagonal significa um movimento/ação moralmente incorreto, injusto. Ora, o Rei move-se e captura uma casa em todas as direções ¾ com movimentos, portanto, “retos” e “tortos”. Entretanto, a figura real era considerada de origem divina e fonte da justiça, e, portanto, não podia fazer movimentos “tortos” na vida. Qual a solução? O moralista falsificou os  movimentos da peça, suprimindo os movimentos “tortos” e dizendo que o Rei se movia apenas retamente.4 No entanto, naquela época ¾ como hoje ¾ essa peça se movia e capturava em todas as direções.


Temos aqui um exemplo claro de que o interesse maior dessas “moralidades” era com a alegoria e não com o jogo. Isso não quer dizer que as moralidades não tenham  tido  importância  para  o  desenvolvimento do jogo na Europa.  Possivelmente elas divulgaram o xadrez e ajudaram a diminuir o preconceito eclesiástico inicial. Mas, como o historiador do xadrez Murray nota5, “para o moralista a fábula era de muito maior importância do que os detalhes do jogo, e os detalhes tinham que se encaixar na explicação, e não o inverso.” O xadrez fornecia apenas a moldura para as alegorias. O alvo das “moralidades” era outro.

Nem todas as alegorias medievais, é bom notar, eram de fundo religioso. Há um poema francês do século XIV, chamado Les échecs amoureux que é a descrição, movimento por movimento, de um jogo entre uma dama e seu pretendente. O paralelo entre amor e xadrez aparece também num livro publicado em 1497 pelo espanhol Luís Lucena, intitulado Repetición de amores e arte de axedrez.

Por volta de 1475, ocorreram algumas mudanças significativas nas regras do jogo, que modificaram o xadrez árabe e deram origem ao xadrez moderno na Europa Ocidental. Basicamente, o ritmo do jogo foi acelerado e algumas peças substituídas.  Os primeiros livros sobre a nova forma do jogo foram todos escritos na Península Ibérica.


Na segunda metade do século XVI, o jogo teve um grande desenvolvimento, e os melhores jogadores passaram a ser patrocinados por mecenas, inclusive  reis. Nessa época também começaram a surgir torneios. O mais antigo documentado ocorreu em 1575 na corte de Felipe II da Espanha, quando se enfrentaram jogadores espanhóis e italianos. Venceu o italiano Giovanni Leonardo, que recebeu mil ducados, uma capa de arminho e durante vinte anos sua cidade natal Cutri, da Calábria, esteve isenta de tributos.

Desde então, o xadrez atravessou todas as tendências históricas e modas culturais que surgiram. A partir de 1730, passou a ser muito jogado em cafés, como o de la Régence, em Paris, um dos mais famosos pontos de encontro de xadrez de todos os tempos, com frequentadores ilustres como Voltaire, Rousseau, Robespierre, Benjamin Franklin, Napoleão e Richelieu. O xadrez também não ficou alheio ao igualitarismo iluminista da fase pré-revolucionária. Cinqüenta anos antes da tomada da Bastilha, foi publicado o livro fundador do xadrez moderno, por um compositor de música e jogador de xadrez chamado Philidor (1726-95) ¾ L’ analyse des échecs, que teve enorme sucesso. Nesse livro, é pela primeira vez descrita a estratégia do jogo como um todo e afirmada a importância decisiva da formação de peões, até então os elementos menos considerados do jogo, por serem o de menor poder ofensivo. Mas  era época do Iluminismo, e os peões foram revalorizados por Philidor numa frase famosa: “eles são a alma do xadrez.”


A partir daí, a teoria sobre o jogo foi desenvolvida de forma ininterrupta.  Surgiram várias “escolas” que preconizavam diferentes estilos ou maneiras de conduzir as partidas de xadrez, como a “Escola Modenense” (de Modena, uma cidade italiana), que em geral se opunha aos ensinamentos de Philidor, preconizando a importância fundamental do ataque rápido e direto ao Rei inimigo através das peças. No final do século XIX, Wilhelm Steinitz (1836-1900) desenvolveu críticas ao xadrez de estilo “romântico”, que defendia o ataque rápido a todo custo, e mostrou a importância da defesa e do acúmulo de pequenas vantagens ao longo do jogo. Ele propunha uma apreciação científica, objetiva do jogo de xadrez. Já um adversário seu, o médico alemão de origem judaica Siegbert Tarrasch (1862-1934), via a partida de xadrez como a imagem de uma guerra: a fase de abertura da partida correspondia à mobilização, ao desenvolvimento estratégico e ao engajamento nos combates iniciais; o meio da  partida era a batalha propriamente dita, onde se decidia a vitória, e o final, a realização da superioridade obtida nas fases anteriores. Em sua teoria do jogo, Tarrasch  distinguia  três  elementos  principais:  as  forças,  o  espaço  e  o  tempo,  que   seriam permutáveis entre si, um podendo transformar-se no outro. Na década de 1920 surgiu, em reação a princípios considerados formalistas e ortodoxos como os de Tarrasch, um movimento batizado de “hipermodernismo”, cujos expoentes permitiam ao adversário ocupar a posição central do tabuleiro ¾ mantendo no entanto um controle estratégico, à distância, desse centro ¾ para depois contra-atacar e demolir suas posições.


Não vou falar de todas as “escolas” e tendências modernas. Mencionei algumas apenas para dar uma idéia da variedade de estilos e concepções a respeito do jogo. Hoje em dia, o tempo das “escolas” passou, importando mais o estilo individual para determinar a maneira pela qual os grandes jogadores atuam. Essas “escolas” têm a  ver, é bom notar, com grandes jogadores, e não com a maioria absoluta de jogadores amadores, que não dominam sutilezas teóricas a respeito de estratégia, nem são virtuosos táticos ¾ jogam apenas por distração.

Evitarei a soberba intelectual de “explicar” ou “decifrar” o “significado” do xadrez, reduzindo-o a fórmulas do tipo “o xadrez representa não-sei-o-quê” ¾ a guerra, a luta, a vida etc. A esse respeito, gostaria de lembrar o livro do filósofo holandês Johan Huizinga, publicado em 1938, Homo Ludens, que tem o subtítulo de “O jogo como elemento da cultura.”6 Observar que é “da” cultura, e não “na” cultura, porque para Huizinga a própria cultura possui um caráter lúdico: ela é “jogada”. É um livro difícil,  com algumas passagens bastante obscuras. De qualquer forma, um dos pontos altos é quando Huizinga ressalta os perigos do reducionismo racionalista: o jogo em si não se pode explicar. Ele possui um caráter estético, de divertimento, que resiste a toda análise e interpretação lógicas: o importante do jogo está no próprio jogo, e não, como nos rituais, em algo além dele, que ele “representa”.

Uma afirmação que parece bastante plausível em relação aos jogos em geral é que eles estão intrinsecamente relacionados às características sociais e culturais  das sociedades em que são jogados, que são ritualizações de componentes culturais dessas sociedades, e que não podem ser “compreendidos” sem que o analista leve em consideração esses vínculos. Essa afirmação segue um esquema de pensamento bastante característico das ciências humanas contemporâneas, e que é aplicado em vários contextos e a vários objetos. A história do jogo de xadrez, no entanto, coloca alguns problemas à universalidade dessa afirmação, porque trata-se de um jogo transcultural, presente em culturas ¾ e mesmo civilizações ¾ muito distantes  no tempo, no espaço e em características culturais. Uma crítica “nominalista” poderia dizer que “xadrez” é apenas uma palavra que, apesar de comum a diferentes culturas, representa na realidade jogos diversos, posto que jogado e representado culturalmente de diferentes formas. Isso pode ser válido para outros jogos, talvez mesmo para a maioria, mas no caso do xadrez esse argumento é fraco. As “moralidades”, “escolas” e outras apropriações culturais do jogo são claramente acessórias. Para além delas, permanece uma estrutura de jogo razoavelmente imutável e que atravessou dessa forma diferentes contextos culturais através de vários séculos.


Para encerrar, um poema:


“O thou whose cynic sneers express The censure of our favourite chess, Know that its skill is science’ self,
Its play distraction from distress;
It soothes the anxious lover’s care, It weans the drunkard from excess; It counsels warriors in their art,





When dangers threat, and perils press; And yield us, when we need them most, Companions in our loneliness.”7

Esse poema foi escrito pelo califa al-Mu‘tazz, por volta do ano 900 ¾ ou seja, há mil e cem anos. É bem possível que a atração que o xadrez exerce sobre quem o joga hoje seja a mesma exercida sobre aficcionados de outros tempos, de outras culturas. Isso, por si só, seria suficiente para tornar o jogo de xadrez uma experiência humana muito especial.





NOTAS


1. Pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, doutorando em Antropologia Social no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ, autor de O espírito militar: um estudo de antropologia social na Academia Militar das Agulhas Negras (Jorge Zahar, 1990), co- organizador de Visões do golpe: a memória militar sobre 1964 (Relume-Dumará, 1994) e Anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão (Relume-Dumará, 1994).

2. Para a história do xadrez, baseei-me em vários livros, principalmente: David Hooper  & Kenneth Whyld, The Oxford companion to chess (Oxford, 1988); H. J. Murray, A history of chess (Oxford, 1913); R. N. Coles, The chess-players week-end book (London, Pitman& Sons, 1950) e Luiz Jean Lauand, O xadrez na Idade Média (Perspectiva/EDUSP, 1988).

3. Uso a tradução de Lauand, op. cit., p. 49-51.

4. Ver Murray, op. cit., p. 530-1.

5. Op. cit., p. 530.

6. Edição brasileira: Perspectiva, 1980.


7. The Oxford companion to chess, p. 308.