quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Robert James Fischer revisitado

Robert James Fischer revisitado

DO BLOG DO EIDER. Postado, quinta-feira, 22 de dezembro de 2011


É comum de tempo em tempo sair reportagem sobre o lendário enxadrista Estadunidense Bobby Fischer em diversos veículos de comunicação. Não é para menos, pois a revolução que ele causou no mundo do xadrez é digna de ser lembrada, estudada e louvada sem sombra de dúvidas. Dessa vez a reportagem que saiu no jornal on-line britânico TheGuardian foi a respeito de uma entrevista feita com o atual campeão mundial, o indiano Vishwanatan Anand, na qual ele declara ter se encontrado com Fischer em 2006. Alguns detalhes do relato de Anand me perturbam desde que eu comecei a ler sobre a biografia do Grande Mestre que no início da década de 70 mudou o rumo dos acontecimentos do xadrez mundial. Pretendo nesse post comentar sobre alguns desses detalhes que na minha opinião fazem toda a diferença quando discutimos a repeito de Robert James Fischer.

Na primeira frase da entrevista Anand diz: " eu encontrei Bobby Fischer surpreendentemente normal e calmo". Baseado em décadas de um discurso preconceituoso a respeito da personalidade de Fischer, Anand esperava encontrar uma pessoa louca e descontrolada. Sabemos que a mídia enxadrística vem reproduzindo sempre a mesma coisa desde a década de setenta: excêntrico, maniático, esquizofrênico, paranóico e coisas mais nessa mesma linha de raciocínio. E conceituando-o dessa maneira tão veementemente e por tanto tempo acabou-se criando um senso comum muito forte na imagem desse gênio. O resultado é que não vemos mais os fatos com os nossos olhos e sim a partir de um discurso pre-estabelecido. Discurso esse que tem uma finalidade muito específica: silenciar a perigosa visão de mundo do maior jogador de xadrez de todos os tempos.



Perigosa pra quem? essa pergunta é muito ingênua pra ser respondida secamente. Mas lembramos que o auge do gênio em questão coincide com o auge da guerra fria onde tudo era uma questão de ponto de vista, de posicionamento e que as opiniões eram formadas a seu respeito levando-se em conta o lado em que se estava na luta política. Fischer, inevitavelmente, levava consigo o peso de sua nacionalidade para onde quer que fosse e era símbolo de uma ideologia capitalista anticomunista pautada pelo individualismo exacerbado. Portanto, podemos dizer sem medo de errar que ele não era visto com bons olhos pelo lado socialista do mundo - e, como sabemos, a nação ícone do socialismo era a união soviética que, por sua vez, dominava o cenário do xadrez mundial. Korchnoi, Petrosian, Spassky, Tal, são apenas alguns das dezenas de nomes que podem ser citados.


Como o xadrez acabou se tornando mais uma extensão da intensa luta política entre duas ideologias antagônicas que apenas se aproximavam em seus paradoxos, não era interessante para a URSS um herói norte-americano, sobretudo se esse herói fosse carismático. E Fischer em 1962 teve um dos seus maiores sucessos em sua curta trajetória no xadrez: ele venceu o Interzonal de Estocolmo com 2,5 de vantagem sobre os seus maiores rivais soviéticos, finalizando com 80% de aproveitamento e sem ter sofrido uma derrota sequer. Segundo Korchnoi nos conta em sua autobiografia intitulada no castelhano El ajedrez es mi vida... y algo más a imprensa soviética tinha grande influência sobre os meios de comunicação, ainda mais quando se tratava de xadrez e foi desde então que começou a campanha de difamação da personalidade de Bobby Fischer.

"Fischer comenzó a ser criticado en todo el mundo del ajedrez como una persona que se comportaba de forma inapropriada, causaba escándalos y violaba las reglas elementales de conducta, provocando innumerables problemas en los torneos tanto a los organizadores como a los participantes". (P.52)

No entanto, Korchnoi na sequencia de seu relato, diz que pelo que ele recorda pouquíssimos jogadores tinham do que reclamar de Fischer, pois sua conduta diante do tabuleiro era impecável e que suas "chatices" em relação aos organizadores contribuiram de forma decisiva para a profissionalização do xadrez. Mas nesse momento os problemas com a imprensa e com a construção do discurso do senso-comum dos enxadristas pelo mundo todo tinha em contrapartida os meios de comunicação ocidentais que prestigiavam Bobby e faziam uso de sua imagem como propaganda política Estadunidense. Até então tudo ocorria bem para Fischer, pois era assim mesmo que funcionava o jogo de opostos na guerra fria - mal falado lá, bem falado aqui, não havia como ser diferente.

É quando as idéias políticas de Fischer começam a se tornar mais complexas e perigosas também para o ocidente que seus reais problemas com seu posicionamento perante as coisas do mundo iniciam. No entender dele os paradoxos da sociedade capitalista se tornam tão nocivos quanto os paradoxos da sociedade socialista. A "ditadura do capital" sustentada e legitimada pela aparente imaculável democracia é tão sanguinária quanto a "ditadura do proletariado" soviética. Tudo se mescla, o bem e o mal se fundem no turbilhão de idéias do gênio. Seu anticomunismo acaba se tornando também antimericano e ele solitário abandona tudo. Numa carta de boas vindas ao Ocidente destinada ao dissidente soviético Korchnoi, Fischer chama essas forças de Forças do Mal. Para tentarmos entender melhor essas idéias, abaixo disponibilizo essa carta traduzida por mim ao português:

Pasadena 9 de junho de 1977

Querido Victor, como está você?Fico feliz que as coisas estejam funcionando para você em sua nova vida. Eu vi seu amigo Ives Kraushaar hoje e nós nos demos muito bem. Fico feliz que ele esteja te ajudando a se ajustar à vida do ocidente. Por causa de minha atitude intransigente em relação ao comunismo, eu tive meus problemas, mas assim é a vida. Eu não acredito em comprometimento, acomodação e submissão ao mal. É assim que são todas as coisas. Espero te ver nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outro lugar logo.

Tudo de melhor e felicidades para você.

Bobby Fischer

Nessa carta fica claro o seu anticomunismo, mas se pensarmos no que ele diz a respeito de ser contrário ao "comprometimento, acomodação e submissão ao mal" talvez possamos pensar em algo muito mais abrangente. Em 1992 Fischer deliberadamente desobedece o decreto que diz que nenhum cidadão Estadunidense pode em hipótese alguma entrar num país socialista sem autorização do Estado Americano: sabemos que ele jogou o match revanche comemorativo dos 20 anos de sua vitória pelo título mundial em 1972 contra Spassky na Ioguslavia que era um país de regime socialista. Na ocasião, Fischer cuspiu publicamente num documento oficial do estado americano que o proibia de entrar no país Ioguslavo, demonstrando total negligência com suas leis e com a sua própria cidadania. Essas idéias eram perigosas demais para a manutenção do status quo capitalista. Bobby se identificava com a luta de Victor contra as forças opressoras da ditadura soviética, pois ele mesmo tinha uma luta parecida no ocidente. Era preciso silenciar o seu discurso. Por essa razão a imprensa ocidental também comprou o discurso a respeito de Fischer que já era muito bem conhecido e aceito no leste europeu e começa a insistente reiteração às suas deficiências psicológicas. A idéia que até hoje é estampada em qualquer reportagem que tenha relação a Bobby Fischer é a de desvalorização de seus pensamentos, de seus discursos políticos, taxando-os simplesmente de paranóicos: não há como dar valor para o que um louco fala.

Voltando a entrevista citada no início do texto, Anand influenciado por décadas de prática discusiva sobre Bobby Fischer em Jornais, Revistas, Rádio e Televisão, não consegue ver outra coisa a não ser Bobby preocupado com gente que o esteja seguindo e segundo Anand isso simbolizava que sua paranóia nunca o abandonou. Talvez ele estivesse preocupado com jornalistas - apenas isso.
Embora Fischer pudesse ter vivido uma vida muito bem ajustada como campeão mundial, com muito dinheiro e fama, ele escolheu ir para um outro lado na luta política mundial ao não se submeter, ao escolher um lado muito específico em sua ideologia quase anarquista, ao se negar ser marionete no complexo jogo das relações de poder. Num jargão muito bem conhecido pela psicologia podemos concluir que Robert James Fischer era um Desajustado.


Referências
KASPAROV, Garry. Meus Grandes Predecessores V.4. Ed. Solis. Santana de Parnaíba, SP: 2006
KORCHNOI, Viktor. El ajedrez es mi vida.... y algo más. Ed, Chessy. Santa Eulalia de Morcín, ES: 2010
http://www.guardian.co.uk/sport/2011/dec/02/vishy-anand-small-talk-interview
Bobby Fischer tells the truth nothing but the truth
http://www.youtube.com/watch?v=QryuMf8qZ0g Acesso em: 23/12/2011
Bobby Fischer Spits
http://www.youtube.com/watch?v=RjbaSVXUq5c&feature=related Acesso em 23/12/2011



Fonte: http://www.cruzeider.blogspot.com/2011/12/robert-james-fischer-revisitado.html

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

MEQUINHO - HENRIQUE MECKING

Top 3 do xadrez nos anos 70, Mequinho reza para voltar ao topo
Folha de São Paulo: CAROLINA ARAÚJO

A rotina de Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, 59, enxadrista que chegou a ser o terceiro melhor do mundo nos anos 70, está longe da agitação da época em que desfilava em carro aberto no Rio e era convidado para o programa do Chacrinha.


Hoje, o que move o jogador todos os dias são duas refeições, seis remédios homeopáticos, uma missa e horas de oração e estudo de xadrez.

Mas, entre os tempos de herói nacional e a vida tranquila atual, o desejo de voltar a estar no topo do ranking mundial liga as duas épocas.


"Se eu chegasse de novo a ser um dos melhores, o país inteiro teria de me apoiar."

Mequinho vive hoje em Taubaté (140 km de São Paulo), em um apartamento de dois quartos e poucos móveis comprado no início do ano.

Mora com Tiago Pereira Rodrigues, 23, 203º lugar no ranking nacional, a quem apresenta como seu treinador e assessor nos treinos.

Sai pouco. Seu compromisso diário mais rígido é ir à missa --frequenta três paróquias diferentes--, hábito que segue mesmo quando disputa algum campeonato fora da cidade. Neste ano, jogou poucos. Lembra-se de um em Campinas, um na Espanha e outro em Santo André.

Mequinho se recusa a viajar para vários países, como a Rússia, um dos principais polos do xadrez mundial e de onde vieram alguns de seus maiores rivais nos anos 70.

"Há muitos lugares a que não quero ir. Só jogo em países em que me sinta bem pela situação política e religiosa, em que os cristãos não sejam perseguidos, onde haja liberdade e democracia."

Na próxima semana, estará em Mogi das Cruzes, nos Jogos Abertos do Interior, disputa entre cidades --defende São Bernardo do Campo. Não revela quanto ganha para isso. Os melhores jogadores brasileiros costumam receber cerca de R$ 2.000 mensais.

Aumenta sua renda com palestras e simultâneas, eventos em que enfrenta vários rivais ao mesmo tempo.

Além do apartamento onde vive, tem um carro. Dinheiro, afirma, não é um problema.

DOENÇA

Mequinho descobriu a religião na época em que se afastou do esporte que o consagrou. O motivo foi a miastenia grave, doença que afeta os músculos e que foi detectada no auge da carreira.

Em 1978, o gaúcho era o terceiro colocado do ranking da Fide (Federação Internacional de Xadrez), atrás dos russos Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi (que, posteriormente, naturalizou-se suíço).

Mas a miastenia o fez abandonar os tabuleiros. No pico da doença, quando não tinha forças para mastigar ou escovar os dentes, Mequinho entrou para o movimento católico Renovação Carismática.

Nos anos seguintes, formou-se em teologia e filosofia, tentou ser padre ("Mas vi que não era esse o caminho"). E afirma que um milagre o levou à cura da doença.

Hoje, diz estar "quase bom". Reclama de cansaço, especialmente quando joga xadrez --voltou definitivamente ao esporte em 2000.

Se está disputando um torneio, acrescenta mais um remédio homeopático a seu arsenal diário. Já a alimentação é sempre a mesma: duas vezes por dia, só alimentos naturais e sem tempero.

Mequinho diz que só vai se curar totalmente "quando Jesus quiser". Mesmo assim, afirma estar "muito vivo". "Vou fazer 60 anos agora [em janeiro]. Muita gente não me dá essa idade e diz que eu tenho dez, 15 anos a menos."

As orações, segundo o enxadrista, não curaram apenas a miastenia. Enumera outros episódios que ocorreram após "rezar muito": a redução do grau da miopia, o conserto da sua geladeira ou a cura de uma fratura no dedo.

"Há jogos em que estou para perder, e Jesus e Nossa Senhora me salvam. Claro, nem sempre escapo, senão já seria o campeão do mundo."

O temor da derrota influencia até sua relação com os fãs. Não aceita dar autógrafos em planilhas de xadrez, onde são anotados os lances das partidas. "Tenho medo de que alguém bote lá que eu perdi."

Com a cura total da doença, espera voltar a estar entre os melhores do mundo. "Se eu disser que Jesus me curou e for o último em um torneio, não vão acreditar em mim."

Mas o topo do ranking mundial está distante. Mequinho é o 253º da lista, com 2.590 pontos, e o quarto colocado entre os brasileiros. Nos últimos dois anos, afirma ter subido 48 pontos no ranking. Faltam hoje 236 pontos para igualar o número um, o norueguês Magnus Carlsen, 20.

O brasileiro, porém, não usa a matemática e a lógica, mas a religião, para explicar como alcançará a façanha. Com relatos de aparições de Nossa Senhora em Medjugorje, na Bósnia, passagens bíblicas e a proximidade do "final dos tempos", diz como será a nova ascensão no xadrez.

POLÍTICA

Do tempo em que era o terceiro melhor do planeta, feito nunca repetido no país, restaram lembranças do regime militar, que transformou Mequinho em herói nacional.
O enxadrista elogia o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici (1969 e 1974), líder dos anos de chumbo da ditadura.

"O presidente Médici me ajudou muito. Era um homem inteligente, gostava de esporte. Em 1970, pedi a ele um cargo para deixar a faculdade em Porto Alegre, só jogar xadrez e tentar ser campeão do mundo. Ele disse: 'Sim, vou resolver seu problema'."

Mequinho foi nomeado no Ministério da Educação e se mudou em 1971 para o Rio.
No ano seguinte, tornou-se o primeiro grande mestre do país, em 1972, aos 19 anos, feito que o levou a desfilar pela cidade em carro de bombeiros com a bateria da Mangueira e a torcida do Flamengo.

Ainda ganhou dois importantes torneios da época, os Interzonais de Petrópolis (1973) e Manila (1976). Suas partidas saiam nos jornais.


Mas Mequinho, testemunha da influência que a Guerra Fria tinha sobre a elite do xadrez, também reclama das pressões daquela época.

"Os melhores do mundo sofrem uma perseguição muito grande. Veja o quanto o [Bobby] Fischer sofreu", diz, citando o americano, morto em 2008, que encerrou a hegemonia soviética ao virar campeão mundial em 1972.

Após virar símbolo dos EUA na Guerra Fria, Fischer abandonou o xadrez em 1975. Como Mequinho, tentou voltar décadas depois. Sem o mesmo sucesso de antes.


Fonte: Jornal Folha de São Paulo http://www1.folha.uol.com.br/esporte/1001991-top-3-do-xadrez-nos-anos-70-mequinho-reza-para-voltar-ao-topo.shtml



13 de janeiro de 1972
Mequinho, o primeiro grande mestre do Brasil
A conquista do enxadrista Mequinho
Jornal do Brasil, Sexta-feira: 14 de janeiro de 1972


O brasileiro Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, tornou-se aos 19 anos o mais jovem grande mestre internacional de xadrez ao empatar com o romemo Victor Cocaltea no 15º movimento em partida válida pela 14ª rodada do torneio de Hastings, na Inglaterra. Depois de conquistar o título, o mestre desabafou: "Agora posso dormir tranquilo. Fiquei várias noites em claro, passando e repassando cada movimento no tabuleiro". De volta ao Brasil, Mequinho foi recebido no aeroporto pela bateria da Mangueira.


O maior enxadrista brasileiro aprendeu a movimentar as peças aos 5 anos, orientado pela mãe. Aos 12 anos, já havia ganho o campeonato gaúcho e, aos 13 anos, o brasileiro. Aos 15 anos, ao conquistar o Sul-Americano tornou-se o mais jovem jogador a vencer um campeonato continental, e em seguida sagrou-se o mais jovem Mestre Internacional da história do xadrez. O desempenho de Mequinho na juventude só é comparável a outros gênios, como o norte-americano Bobby Fischer e o russo Garry Kasparov. O brasileiro aos 18 anos chegou a empatar uma partida com Fisher, já naquela época considerado o mais forte enxadrista de todos os tempos.

Em 1978, atingiu a posição de terceiro melhor jogador de xadrez do planeta, com 2.635 pontos, na tabela da Federação Internacional de Xadrez, atrás apenas de Viktor Korchnoi, vice-campeão mundial, e de Anatoly Karpov, campeão mundial. Mas naquele mesmo ano Mequinho foi bruscamente obrigado a interromper sua carreira. O jogador foi acometido de miastenia, doença que ataca e debilita o sistema nervoso e os músculos. Desenganado pelos médicos, que disseram que ele poderia morrer a qualquer momento, ingressou na Renovação Carismática Católica e diz que ficou curado. Mequinho retornou às disputas internacionais em 2000, mas tem dedicado a maior parte de seu tempo à religião.

Fonte: http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=25337



Mequinho pronto para virar o jogo
Na base da fé e da homeopatia, grande mestre se recupera de doença e espera voltar a competir em alto nível
Ana Paula Garrido - O Estadao de S.Paulo

A doença de nome difícil - miastenia -, e tratamento mais difícil ainda, quase deu um xeque-mate em Henrique Mecking, o Mequinho. Foram 17 anos longe do mundo de torres, peões, rainhas e reis - de 1979 a 1991 e 1995 a 2000. Durante esses intervalos, arriscou algumas disputas, mas admite que não foi nada bem. Mas, agora, o discurso é diferente. Mequinho vem retomando, ainda devagar, a rotina de jogos. No ano passado, o melhor enxadrista que o Brasil já teve participou de três torneios e empatou por 2 a 2 com o melhor da América do Sul.

Para ele, a recuperação só foi possível graças a remédios homeopáticos, alimentação natural e oração, muita oração - mesma tática usada em jogos difíceis. "Já estive completamente perdido em quatro ou cinco disputas, mas, começo a rezar em voz baixa, Jesus fica com pena de mim e me salva", diz.

A ligação íntima com a religião - formou-se em teologia e participa do movimento Renovação Carismática, da Igreja Católica -, o faz assegurar que sua cura está próxima. "Estou quase bom. Há dez anos jogava muito pior do que agora", conta.

Mequinho aposta em cura ainda para este ano. "Na Bíblia diz: "Para Deus um dia é como mil anos e mil anos como um dia". Vou ser curado rapidamente."

O desejo é ser o mesmo de 1978, quando se sagrou o 3º melhor do mundo no ranking da Federação Internacional de Xadrez (FIDE). "Pretendo voltar a ser um dos melhores, até o primeiro", torce. A doença que atrapalha a ligação dos nervos com os músculos o faz perder força rapidamente após atividades física ou mental. "Os erros são por causa do cansaço. Além disso, demoro mais para me recuperar dos torneios."

A necessidade de intervalos mais longos impede a participação de Mequinho em campeonatos seguidos, que contam pontos para o "rating" internacional (ranking dos melhores do mundo). Cada partida vencida é somada na pontuação. Quando disputada com adversário de nível superior, até empate rende pontos. Em 1978, ele atingiu a marca de 2.635. Hoje, está longe dos primeiros lugares.


"Fui prejudicado porque houve uma grande inflação de "rating". A Federação deu pontos para mulheres e surgiram novos jogadores", reclama. Mesmo assim, Mequinho se orgulha da conquista, que o coloca na classe dos grandes mestres - acima de 2.500 pontos - para sempre. E afirma que, mesmo na época aguda da doença, nunca esteve abaixo disso.

Enquanto não volta a ter 100% de condições, Mequinho controla a ansiedade com a certeza de que o pior já passou. Quase morreu durante uma crise da doença em 1979. Na época, não conseguia mastigar e nem sair de casa, tamanha a fraqueza. "A empregada me dava comida na boca e um amigo escovava meus dentes", relata.

Como grande mestre de xadrez, Mequinho soube lidar com o tempo prolongado para se livrar da miastenia. Já são 31 anos, entre tratamento nos Estados Unidos e remédios diários, além de visitas às cidades milagrosas e participação em grupos de oração.

No entanto, a paciência não é a mesma para partidas mais longas. Prefere jogos mais rápidos realizados em sites como o Clube de Xadrez Virtual (ICC). "Fui dez vezes o numero um no ICC. Ali se reúnem os melhores do mundo e tem mais de 200 mil jogadores", orgulha-se.

A preferência por lances mais breves também é clara no livro em que fala sobre sua vida. Os 14 capítulos têm em média uma página e meia cada um.

Mesmo em conversas sobre xadrez, Mequinho sempre acha espaço para discursar sobre santos e teorias católicas. Tudo acompanhado de datas e nomes detalhados. Porém, a memória ainda não armazenou a senha para entrar no ICC, anotada num papel dobrado.


RECUPERAÇÃO

Para auxiliá-lo na fase de recuperação, Mequinho chamou o enxadrista Tiago Pereira Rodrigues. Enquanto o grande mestre fica na sala lendo sobre xadrez ou analisando partidas, o jovem Tiago, de 21 anos, sentado a frente de três computadores, reúne informações sobre os principais mestres e jogadas. Para o garoto, vale o aprendizado.

Acostumados a passar horas em frente a um tabuleiro, os dois só se enfrentaram uma vez, numa partida simultânea, quando Mequinho jogou com vários ao mesmo tempo. Tiago perdeu. Os dois se enfrentam mais no caratê, esporte que Mequinho pratica, assim como a corrida, para manter a forma.

Se depender de autorização médica, o mestre pode voltar logo. "Ele se encontra num grau bem estável, em condições de disputar campeonatos", afirmou o homeopata Luiz Eduardo Andrade. Disse que ele está preparado, com remédios mais fortes, para atividades intensas, como campeonatos, ou para enfrentar crises da miastenia.

Já o presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, Pablyto Robert, desconfia que a retomada de Mequinho dê resultado. "Ele nunca deixou de ser um grande jogador, mas para brigar por títulos é difícil. Ele ficou muito tempo longe e a idade também é fator determinante no xadrez competitivo", aponta.

PLANOS

O primeiro passo de Mequinho este ano é conseguir um patrocínio de alguma cidade paulista para os Jogos Abertos do Interior. Ano passado, ficou em 3º lugar, por São Bernardo. A Secretaria de Esportes da cidade avisou que, por enquanto, não há nada programado sobre contratações para este ano.

Mequinho também aposta nas partidas simultâneas para se manter financeiramente. Seu desempenho é bom na categoria. "Não perco há 34 anos." A última participação foi em outubro, durante a Virada Esportiva, em São Paulo.

Por enquanto, o único compromisso acertado para 2010 será em março, em Caxias do Sul, durante a Festa da Uva. Apesar de não valer pontos para o ranking mundial, Mequinho pode jogar com grandes mestres, "entre eles, um da Ucrânia, que é campeão mundial de xadrez rápido".

O único enxadrista brasileiro que chegou a ser o terceiro melhor do mundo ainda não consegue definir uma data para sua volta definitiva. Mas mantém a esperança e se esforça para continuar com o raciocínio ativo. Questionado em quanto tempo percorria quatro quilômetros, Mequinho ainda não havia se preocupado em cronometrar sua corrida, praticada duas vezes por semana. Tratou, porém, de calcular um valor aproximado, por meio do tempo médio para a distância de 2,5 km. Chegou ao intervalo entre 16 e 18 minutos.




GRANDE MESTRE
Nome: Henrique Costa Mecking
Nascimento: em 1952, na cidade de Santa Cruz do Sul (RS)
Idade: 58 anos
Quando começou: aos 6 anos

Principais conquistas:
1959: Vice-campeão de São Lourenço do Sul (RS)
1964: Campeão gaúcho
1965: Campeão brasileiro
1967:Título de Mestre Internacional
1972: Título de Grande Mestre Internacional
1978: Terceiro melhor jogador de xadrez do mundo
2005: Segundo lugar no Torneio Zonal 2.4 da Fide
2006: Campeão invicto do Torneio de Lodi (Itália)
2010: Completa 34 anos de invencibilidade em partidas simultâneas no Brasil

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MAGNUS CARLSEN

Xadrez
O garoto de meio milhão de jogadas
Revista VEJA, Alexandre Salvador

Essas são as possibilidades que o norueguês Magnus Carlsen, o novo número 1 do ranking, enxerga diante do tabuleiro. Aos 19 anos, ele é o grande nome de uma geração de enxadristas criada com os recursos dos computadores

APRENDIZADO VIRTUAL Carlsen, grande mestre desde os 13 anos, só treina com softwares: ele não se lembra se tem em casa um tabuleiro convencional

Diante de um tabuleiro de xadrez, o norueguês Magnus Carlsen é capaz de proezas notáveis – principalmente para um jovem de apenas 19 anos. Sua memória guarda meio milhão de jogadas possíveis. Isso significa dispor de resposta pronta para praticamente qualquer lance do adversário. Não bastasse esse imenso arsenal, ele também consegue prever os vinte lances seguintes de uma partida, de acordo com suas movimentações iniciais e as de seu adversário. Carlsen encarna um personagem que gozava de grande popularidade num passado não muito distante – o gênio do xadrez. Até a década de 90, as disputas entre os grandes enxadristas eram televisionadas e eletrizavam o planeta. Os jogadores eram festejados como heróis e tinham seus passos seguidos com curiosidade. O interesse pelo xadrez diminuiu consideravelmente.

Magnus Carlsen, pela precocidade e pela velocidade com que vem galgando degraus na carreira, é o primeiro enxadrista em condições de virar celebridade desde então.
Em 2004, com apenas 13 anos, Carlsen derrotou o antigo campeão mundial, o russo Anatoly Karpov, e empatou com o também russo Garry Kasparov, então o número 1 do ranking da Federação Internacional de Xadrez (Fide). No mesmo ano, recebeu o título de grande mestre, a mais alta qualificação de um enxadrista, equivalente à faixa preta nas artes marciais. No ano passado, Carlsen venceu dois torneios cruciais, um na China e outro na Inglaterra, e a recompensa veio no início deste mês. A Fide o colocou na primeira posição no ranking global dos jogadores de xadrez. "Desde a aposentadoria de Kasparov não surgia um jogador de primeiro time que fosse carismático, que atraísse a simpatia do público, como Carlsen", disse a VEJA o americano William Hall, diretor executivo da federação americana de xadrez.
Magnus Carlsen é o grande nome de uma geração de enxadristas que guarda diferenças significativas com os campeões do passado. Boa parte da popularidade desfrutada pelo xadrez nos anos 60 e 70 se devia à exploração ideológica do jogo promovida pelos Estados Unidos e pela União Soviética durante a Guerra Fria. Os soviéticos foram os maiores campeões de xadrez no século XX, mas sua hegemonia era constantemente ameaçada pelos americanos, e as disputas se tornaram instrumentos de marketing na polarização entre capitalismo e comunismo. No século passado, apenas um americano, Bobby Fischer, conquistou o título de campeão mundial de xadrez, em 1972, derrotando o russo Boris Spassky. A partida entre ambos, que durou um mês e meio e foi acompanhada atentamente em todos os quadrantes do planeta, ganhou o apelido grandioso de "o jogo do século".
Boris Spassky x Bobby Fischer


A característica da geração de enxadristas a que pertence Magnus Carlsen é que ela foi forjada sob forte influência dos computadores e dos softwares de xadrez. Numa entrevista recente, Carlsen não soube dizer se tinha em casa um tabuleiro de xadrez convencional – seu treino, que lhe toma de seis a oito horas diárias, é todo feito com o computador. Em maio de 1997, causou enorme repercussão a derrota de Garry Kasparov na partida que disputou com o supercomputador Deep Blue, construído pela IBM. Parecia incrível que a inteligência cibernética sobrepujasse a humana. Mal se sabia o que estava por vir. Naquele tempo, os programas de xadrez eram apenas grandes bancos de dados de jogadas, anteriormente catalogadas em livros para consulta. Com o avanço da tecnologia e a chegada da internet, os softwares ficaram mais espertos. Além de ser possível atualizá-los com os lances das partidas recém-jogadas, o computador já pode simular o estilo de jogo dos melhores enxadristas, ou seja, imitar soluções criadas por jogadores de carne e osso. "Com os programas de xadrez atuais, é muito difícil vencer a máquina, tanto por sua velocidade de processamento de dados quanto pela qualidade dos lances", diz o enxadrista carioca Darcy Lima, detentor do título de grande mestre e membro do conselho da Fide.
Isso significa que, para derrotarem os computadores, os jogadores têm de ser mais inteligentes? Não necessariamente. Disse a VEJA o psicólogo cognitivo Fernand Gobet, da Universidade Brunel, em Londres, autor de pesquisas que relacionam o xadrez com a inteligência de seus praticantes: "Hoje está provado que o QI não é fator decisivo para se tornar um grande jogador de xadrez. O mais importante é começar a jogar o mais cedo possível, ter motivação para aprender sempre mais sobre o jogo e treinar muito. Só assim se chega a guardar na memória meio milhão de jogadas". Essa foi a trajetória percorrida por Magnus Carlsen.
Fonte: Revista VEJA » Edição 2149 / 27 de janeiro de 2010


JOVENS MESTRES
REVISTA ISTOÉ N° Edição: 2096 | 08/Janeiro/2010
Cada vez mais novos, eles treinam xadrez pela internet e se superam a cada geração
PERFIL : Norueguês, 19 anos, grande mestre pela Federação Internacional de Xadrez (Fide)
FUTURO: É treinado pelo célebre russo Garry Kasparov

Magnus Carlsen acabou de completar 19 anos, não lembra se tem um tabuleiro de xadrez em casa, mas é o número 1 no ranking internacional de grandes mestres do esporte, o título mais alto entre os enxadristas profissionais. Nascido na Noruega, é uma exceção entre os grandes que, tradicionalmente, vêm de países que investem dinheiro público no fomento do jogo e no treino de suas estrelas. Carlsen aprendeu o grosso do que sabe pelo computador e, até pouco tempo, raramente jogava no tabuleiro. Foi diante do monitor que ele sentiu despertar o interesse pelas combinações possíveis das 16 peças no tabuleiro de 64 nichos. Hoje, ele é pupilo do célebre russo Garry Kasparov, tido como o maior enxadrista profissional de todos os tempos. “Quando Carlsen se aposentar como jogador, ele terá mudado o xadrez de maneira considerável”, ponderou Kasparov, que nunca foi modesto, em entrevista à revista “Time”. Apesar de impressionante, a trajetória do norueguês ainda é curta e seu sucesso a longo prazo uma incógnita. Não foram poucos os que surgiram como grandes promessas não cumpridas.




Magnus Carlsen entrevistado pela Revista Época
"Ainda podemos derrotar as máquinas"

O pupilo de Kasparov e mais jovem número 1 do mundo da história do xadrez – façanha obtida na semana passada – fala a ÉPOCA sobre o futuro do jogo
Na semana passada, ao derrotar o húngaro Peter Leko em um torneio em Moscou, o norueguês Magnus Carlsen se tornou o mais jovem número 1 do xadrez desde a criação do ranking mundial, em 1970. Ele atingiu 2.806 pontos, um a mais que o búlgaro Veselin Topalov. Ironicamente, ele superou o recorde de seu atual mentor – o ex-campeão mundial (1985-2000) Garry Kasparov, que chegou ao topo aos 20 anos, em 1984. O bizantino sistema do xadrez faz com que Carlsen não seja o campeão mundial – o título pertence ao atual número 3, o indiano Viswanathan Anand. A julgar pela evolução de Carlsen, essa distorção é uma questão de tempo.

ÉPOCA – Você esperava ser o mais jovem número um da história?
Magnus Carlsen - Honestamente não. E é por isso que tem sido tão divertido. Sei que há muitas outras metas a cumprir. A mais imediata é conservar ao máximo este ranking.

ÉPOCA – Sua próxima ambição é ser o mais jovem campeão mundial?
Carlsen - Meu objetivo é ser campeão, não importa quando. Não tenho pensado muito no Mundial ou no ciclo para chegar até lá. Uma coisa é ser um simples candidato ao título, outra bem diferente é estar preparado para a disputa. Minha meta é melhorar meu jogo. O título mundial será uma extensão.

ÉPOCA – O atual campeão do mundo é o indiano Viswanathan Anand, o terceiro do ranking, e não você, o número um. Tal disparidade não confunde o público?
Carlsen - Não penso nisso. Deixo esta resposta para a Fide (a Federação Internacional de Xadrez).

ÉPOCA – Ser treinado pelo Kasparov foi iniciativa sua?
Carlsen - A ideia inicial foi dele. Quando soube por um amigo em comum que Garry gostaria de colaborar, imediatamente aceitei. Logo acreditei que seria bom para o meu desenvolvimento. Começamos em janeiro, e nosso acordo vale até o final do ano que vem. Passamos alguns dias juntos na Croácia, em Moscou e na Noruega. Não vou entrar em detalhes sobre nossa rotina, mas temos dado ênfase às aberturas (lances iniciais das partidas). Mantemos contato mesmo à distância. Ele segue meus torneios pela internet, em tempo real.

ÉPOCA – E por que ele te procurou? Pelo dinheiro?
Carlsen - Ele sempre fala em oferecer um legado, em dar algo ao xadrez. Campeões do passado ajudaram na formação do seu jogo, e ele agora quer fazer algo parecido no papel de treinador. Eu não poderia querer um técnico melhor. A contribuição dele é ótima tanto na técnica quanto na psicologia do jogo. Sua energia é impressionante. Sempre fico cansado quando termino um dia ao seu lado. Mas é bom.

ÉPOCA – Nos jogos entre vocês, quem ganha?
Carlsen - Há muito equilíbrio, são bons jogos. Nenhum de nós quer perder.

ÉPOCA – Teme decepcioná-lo?
Carlsen - Nunca se tem certeza de nada. Confio no meu potencial, e meu papel agora é buscar minhas metas e jamais desistir.

ÉPOCA – O que conversaram depois que assumiu o topo do ranking?
Carlsen - Nada diferente do que vínhamos falando antes, que o importante é seguir focado no desenvolvimento do jogo e não desistir nunca.



ÉPOCA – Como os programas e sites de xadrez melhoraram seu nível de jogo?
Carlsen - Hoje é possível jogar e reproduzir online as partidas dos grandes torneios. Como a Noruega não tem tradição no xadrez, a internet foi uma grande ferramenta durante meus primeiros anos no tabuleiro. Só depois é que passei a treinar na academia de Simen Agdestein (seu primeiro treinador). No passado, nascer em país de forte tradição, como a União Soviética, representava uma importante vantagem, mas o xadrez moderno é mais democrático. A internet e os softwares nivelaram o jogo.

ÉPOCA – O domínio da máquina sobre o homem não torna o xadrez monótono e menos criativo?
Carlsen - A capacidade de cálculo dos computadores é claramente maior, mas isso não diminui o xadrez como esporte mental praticado entre pessoas, por mais que elas tentem decorar aquilo que o computador sugere. Humanos sofrem pressão e estafa, o que interfere muito no resultado final. Acho benéfica a interferência das máquinas no xadrez. Ela facilita muito a compreensão do público nas partidas disputadas entre os jogadores de elite. Isso tem sido importante para o aumento do número de praticantes.

ÉPOCA – Os computadores hoje são imbatíveis?
Carlsen - Não afirmaria isso. Os humanos seguem com chances na metade do jogo (fase em que, segundo os enxadristas, a intuição é tão importante quanto o cálculo).

ÉPOCA – Você pensa em desafiar um programa de ponta, como o Deep Fritz?
Carlsen - Por enquanto não. Se houvesse um match assim, não entraria esperando ganhar.

ÉPOCA – Você começou a jogar aos oito anos. Qual a melhor idade para iniciar no xadrez?
Carlsen - Não há uma regra. Mais importante que a idade é a motivação para entender o jogo. Acho que uma criança está pronta para isso dos 4 aos 10 anos.

ÉPOCA – Quando percebeu que era um talento raro?
Carlsen - Nunca me considerei assim, mesmo hoje. Mas tive uma noção da minha qualidade já nos primeiros torneios. Mesmo tendo aprendido a jogar mais tarde que meus adversários, conseguia vencê-los.

Fonte: Revistas Época, VEJA e ISTOÉ

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

TEXTOS DE XADREZ

O objetivo é compartilhar artigos, textos e crônicas enxadrísticas com outras pessoas.

Boa leitura,
Cleando Cortez