quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dr. Luiz Tavares e Mequinho

Entrevista com Dr. Luiz Tavares!
Julho, 14, do ano de 1976
Publicado no blog "Reino de Caíssa" em junho de 2017

Dr; Luiz Tavares (E) e Mequinho (D)


Mequinho perdeu quatro quilos durante o Torneio Interzonal de Manila - Filipinas, em 1976. que conseguiu vencer. Chegou a ser ameaçado, inclusive de agressão física pelo norte-americano Walter Browne, sobre quem teve sua melhor vitória no torneio. Em certo momento das disputas houve falta de luz no salão dos jogos e o americano voltou a dar trabalho ao árbitro Florêncio Campomanes.

Tudo isso foi contado no Hotel Tambaú pelo ex-presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, o médico pernambucano Luiz Tavares da Silva, ao enxadrista Herbert Carvalho, um dos fortes participantes do 43º Campeonato Brasileiro de Xadrez e enviado especial da Folha de São Paulo.

Esta entrevista teve direito de publicação concedidos a Fernando Melo (colunista de A União) e o jornal passa a divulgá-la em sua quase totalidade. 

FILIPINAS : Um torneio de muita garra
Henrique da Costa Mecking
"Mequinho"

Pernambucano de Recife e médico de profissão, Luis Tavares da Silva é um doa admiradores de Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, cuja fama no mundo internacional do xadrez ele ajudou a criar, Neste momento ele está no Hotel Tambaú assistindo ao Campeonato Brasileiro de Xadrez e descansando da longa viagem de 35 horas de regresso de Manilla onde esteve até o final de Torneio Interzonal.

O dr. Tavares, que já foi campeão brasileiro e presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, acompanhou o desenvolvimento da carreira do único Grande Mestre brasileiro desde o seu despontar, em 1965, quando ainda um garoto de apenas 13 anos, bastante magro e tão pequeno que quase não podia alcançar o tabuleiro, venceu o campeão nacional daquele ano.

A partir daí, Tavares teve a certeza de que aquele garoto tímido, vindo do interior do Rio Grande do Sul, chegaria a ser campeão mundial de xadrez. Foi então que, juntamente com um grupo de enxadristas da época, passou a atuar para propiciar ao futuro Grande Mestre as oportunidades necessárias ao desenvolvimento de todo aquele talento em potencial. 

Desde o princípio sempre acompanhou Mequinho em todos os Torneios Internacionais de importância, como ele mesmo conta: "A primeira vez foi na Tunísia, em Sousse, onde em 1967 ele jogou o primeiro Interzonal. Depois fomos por duas vezes a Hastings, depois em Lugano e em Augusta e 1974 quando ele foi derrotado por Korchnoi. Agora houve esta viagem a Manilla."

Tavares diz que sua admiração por Mequinho surgiu ao observar seu extraordinário talento, principalmente nas partidas rápidas, notando em seguida seu senso posicional e comportamento com relação ao xadrez e, enfim, sua dedicação e autocontrole na perseguição dos objetivos.


Dr. Luiz Tavares, o anjo da guarda de Mequinho
"Acho que nenhum outro jogador, com a possível exceção de Bobby Fischer, se impõe uma disciplina tão férrea como Mecking", assegura Tavares, ao explicar a disciplina de Mequinho como um dos fatores mais importantes de sua vitória em Manilla. 

"Enquanto outros jogadores, como Mariotti ou Gheorghiu e até mesmo os soviéticos, eram displicentes e dispersivos, Mequinho empenhava todas as suas energias nas partidas, com várias horas de preparação diária dos lances de abertura jogados por seus adversários" - relatou.

Em seguida Tavares descreve a rotina de Mequinho em Manilla:
- Logo pela manhã, após o café, ele pegava o boletim com as partidas da rodada anterior e estudava atentamente todos os jogos. Depois reproduzia, de acordo com os livros, todas as partidas jogadas por seus adversários nos últimos 10 anos. Pontualmente, as 11 horas, almoçava seguindo dieta especial que quase sempre consistia em bife com arroz, completamente diferente da alimentação dos demais jogadores que se deliciavam com as comidas típicas das cozinha filipina, notadamente frutos do mar.

Durante todo o Torneio -  informa Tavares - Mequinho perdeu cerca de quatro quilos.Após o almoço ele dava uma caminhada de uma hora, sempre sozinho, pelos parques e jardins ao redor do Hotel. Enquanto Spassky (que jogava tênis) e os demais jogadores se divertiam o dia de Mequinho não reservava qualquer momento para o seu lazer pessoal. Ainda pela manhã, fazia por cerca de uma hora, ginástica pesada, para depois estudar as análises que seu segundo, o carioca Márcio Miranda preparava. Seu único momento de descontração era à noite. Depois do jogo, durante o jantar, ele estava sempre alegre, conversando bastante, mas nunca sobre a partida que acabara de jogar ou sobre xadrez, de maneira geral.

Mequuinho em 1976

interessantes da preparação de Mequinho foram contados por Tavares:

Mequinho foi o primeiro jogador a chegar a Manilla, com bastante antecedência ao  início do Torneio e a primeira coisa que fez foi vedar totalmente a janela de seu quarto com um papel preto, usado nos laboratórios fotográficos, para que não entrasse qualquer réstia de luz que lhe perturbasse o sono. Seu quarto era tão protegido contra luz e ruídos, que tive receio de que isto pudesse lhe abalar a saúde. 

Tavares revelou ainda que, na solenidade de abertura para o emparceiramento, quando é praxe cada jogador indicar uma pessoa para o Tribunal de Apelação do Torneio, a pessoa indicada por Spassky foi vetada pelos próprios dirigentes da Federação Soviética. "Outra coisa que pouca gente sabe no Ocidente é de um dos grandes participantes, Yuri Balashov, é o primeiro Grande Mestre formado pela Faculdade de Xadrez que existe em Moscou", informou Tavares.

E relatou ainda: "Normalmente, em um torneio de xadrez o ambiente entre os jogadores é e grande cordialidade, já que se trata de um esporte de intelectuais. Mas, infelizmente, nem tudo foi assim em Manilla. Na partida que Mequinho jogou contra o norte-americano Walter Browne, considerada sua melhor vitória no torneio, houve muita guerra de nervo por parte do americano, o que provocou inclusive um protesto oficial de Mequinho ao árbitro Florêncio Campomanes que, com muita habilidade conseguiu contornar o problema".

"O que aconteceu" - explica - "é que dias antes , Mequinho adiara por motivo de doença, sua partida com o romeno Gheorgiu, e Browne, suspeitando da veracidade de enfermidade do brasileiro, chegou a ameaçá-lo de agressão física, caso isso viesse a prejudicá-lo no Torneio. Entretanto, esse incidente, que deve ter ocorrido devido em temperamento muito nervoso de Browne (que já teve problemas desta natureza, neste e noutros torneios anteriores) foi completamente dominado por Campomanes, que fez com que os dois se dessem as mãos e esquecessem as mágoas. Dias depois, conversavam animadamente sobre variantes, no ônibus que conduzia os jogadores do Hotel ao salão de jogos".


Falando sobre as características técnicas da atuação de Mequinho, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Xadrez ressaltou a habilidade com que ele se conduziu no apuro de tempo "como excelente jogador rápido que é e sempre foi, principalmente nas partidas com Browne e Panno, quando jogou cerca de 20 lances em um minuto e pouco".

Disse ainda que com relação ao sorteio inicial dos participantes, Mequinho não ficou satisfeito pois havia sido emparceirado com as peças brancas contra os jogadores mais fortes e com as pretas contra os mais fracos, "o que, na sua opinião, lhe era desfavorável, pois preferia jogar de brancas com os fracos, quando ganharia com certeza e de pretas com os mais fortes, pois assim não perderia".


Florêncio Campomanes que foi eleito mais tarde preesidentee da FIDE
Revela o médico Luiz Tavares que o árbitro Campomanes teve outra situação difícil. novamente contra o americano Browne. 

De repente, como acontece na minha terra, o Recife, a luz apagou-se exatamente no momento em que a partida entre Browne e Polugayevski chevava ao momento decisivo. Em outras partidas as setas dos relógios também estavam suspensas. Aí então, foi ligado o gerador de emergência que não foi considerado por Browne satisfatório o suficiente para continuar o jogo. Então, começou a gritar, protestanto; Campomanes tentou acalmá-lo, já que nada mais podia fazer, pois este detalhe não estava previsto pelo regulamento. Nada adiantou, até que ele teve de gritar para o norte-americano se sentar e continuar jogando, ao que finalmente foi obedecido.

Tavares conta que a figura do árbitro Campomanes muito o impressionou e que este, inclusive, está muito cotado atualmente para substituir o holandês Max Euwe na Presidência da Federação Internacional de Xadrez.


Mequinho em 2016

domingo, 12 de fevereiro de 2017

o oportunismo de Alekhine

A Escola Soviética do Xadrez, o trágico oportunismo de Alekhine, o Ogro de Baku e o professor Carlos Bellino

Escrito por  Antonio Monteiro

Há já algum tempo o professor de filosofia Carlos Bellino sugeriu-me que escrevesse um artigo sobre o xadrez e a política. O tempo foi passando e nada. 

Cheguei mesmo a pensar que o professor tinha-se esquecido da sua sugestão. Mas eis que numa das suas recentes viagens a Portugal me traz o livro: “A Vida imita o Xadrez” da autoria de Garry Kasparov. ‘Bom, a oferta de um livro por si só não obrigado a nada. Muito provavelmente ele terá o direito de esperar que eu leia-lhe o livro, mais nada. Até porque ele nem é o autor’, pensei com os meus botões. Esta minha opinião desfez-se como água na água, quando, para certificar-me de um pormenor, reabri o livro de Kasparov e, à luz de uma vela subitamente antiga, reli a dedicatória: “Para o António Monteiro, com amizade e esperando que este livro te traga inspiração para produzires mais e novas prosas sobre o xadrez e a política”. ‘Mil macacos me mordam se isto aqui não é uma intimidação, ainda que escrita com letrinha de filósofo’. Por isso, caro Bellino, aqui estou a cumprir o prometido.

Sinceramente nunca tive especial interesse pelo tema, o que não significa que ignoro completamente toda a prosa que desde o “Match do Século”, disputado em 1972, em Reykjavík, se tem escrito sobre as múltiplas imbricações entre o xadrez e a política. Para mim xadrez é xadrez, política é política e vida é vida. Proclamar, como pretende Kasparov, que a vida imita o xadrez, é esquecer uma verdade fundamental: o xadrez não passa de um jogo, aliás, de tabuleiro, embora possa ser colocado no mesmo patamar com a arte e o desporto. A ideia que o xadrez imita a vida não é nova e antigos campeões mundiais do passado estabeleceram esta ligação – com resultados trágicos como adiante veremos. Por razões de espaço concentremo-nos apenas em dois ex-campeões mundiais: Alexander Alekhine e Bobby Fischer. 

Os dois estavam convencidos de que tanto na vida como no xadrez Deus colocou um lance genial que permite aos simples mortais sair de qualquer situação por mais precária e desesperada que seja. O segredo está apenas em encontrá-lo. Ao fim e ao cabo a um mestre de xadrez tudo é permitido, conquanto ele encontre a jogada redentora na devida altura. Por isso Alekhine não se coibiu de colaborar com os nazistas durante a 2ª Guerra Mundial e de escrever artigos anti-semitas defendendo a tese que os judeus jogavam um xadrez defensivo, em que contava apenas o lucro material. Reivindicou que nunca houve um verdadeiro artista de xadrez de origem judaica e que só em solo nazi se podia respirar o xadrez puro. Alekhine incluiu nos representantes do xadrez ariano os nomes de Philidor, Labourdonnais, Anderssen, Morphy, Tchigorin, Pillsbury, Marshall, Capablanca, Bogoljubov, Euwe e Keres. Para jogadores judeus, havia somente Steinitz e Lasker. Quando este faleceu em 1941, Alekhine escreveu que tinha desaparecido o último campeão do mundo judeu. 

Apesar de toda a sua genialidade – e ele sempre será sempre lembrado pelas suas combinações antológicas, que ainda despertam admiração entre os melhores jogadores da actualidade – Alekhine, como homem e xadrezista, era um camaleão e um oportunista do piorio. A capacidade inata de se metamorfosear e de entrar na pele do seu adversário e derrotá-lo com suas próprias armas valeu-lhe espectaculares triunfos e mesmo a conquista do campeonato do mundo contra Capablanca. Quando o cubano deu-se conta de que Alekhine tinha estudado todas as suas partidas e estava a jogar contra si próprio, já era tarde e a sua heroica resistência apenas lhe aumentou a agonia: depois de quase dois meses e 34 partidas o até então tido como invencível foi destronado. Capablanca pediu imediatamente um match-revanche, mas o oportunista Alekhine preferiu dar primazia a jogadores que não representavam nenhum perigo para ele: escolheu Bogoljubow em duas oportunidades, vencendo ambos os matches folgadamente, em 1929 e 1934. A coisa pôs-se feia quando em 1935 enfrentou o relativamente desconhecido Max Euwe – e foi estrondosamente derrotado. O gentleman holandês aceitou logo um match-revanche no qual foi surpreendentemente derrotado. É que chocado com a derrota, sem ninguém se dar conta, nem o próprio Euwe, o mestre russo entrou num treinamento rigoroso e abstémico e recuperou o título dois anos depois. Alekhine tornou-se assim no primeiro campeão a conseguir recuperar o título num match-revanche. Capablanca não teve a mesma sorte, porque Alekhine cortou relações com ele e evitava sistematicamente participar em torneios em que o ex-campeão era convidado. Os dois mestres só se encontram 9 anos depois, em Nottingham, Inglaterra. Capablanca vence o torneio e derrota o seu arqui-rival no confronto directo. 

Devido aos artigos anti-semitas, e embora tecnicamente campeão do mundo, Alekhine não foi convidado para nenhum torneio de xadrez depois da 2ª Guerra Mundial. Em Março de 1946 morreu subitamente num hotel em Estoril, quando esperava pela concretização de um match redentor contra Botvinik. 

Escorraçado pela comunidade xadrezística internacional, Alekhine só encontrou guarida no Portugal cinzento e salazarista, onde faleceu só, empobrecido e odiado. A Federação Portuguesa de Xadrez encomendou o funeral, ao qual menos de 12 pessoas compareceram. Alekhine quase tinha encontrado o lance genial para se salvar – o match contra Botvinik. De facto, um dia após a sua morte uma carta chegou convidando-o a Inglaterra para o match, mas já era tarde. Enfim, um trágico oportunista. Desgraçadamente a vida é real, desgraçadamente ou felizmente o xadrez é apenas um jogo.

Ps: O Prof. Carlos Bellino regressou há já algum tempo de Portugal e voltou a surpreender-me com a oferta de mais um livro, neste caso os “Fundamentos do Xadrez”, da autoria de José Raúl Capablanca. Passe a redundância, “Fundamentos do Xadrez” é um livro fundamental da literatura xadrezística e de leitura obrigatória até para não-praticantes. Dentro em breve voltarei ao livro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 793 de Cabo Verde, 8 de Fevereiro de 2017.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CULTURA DO XADREZ

 
 Uma história cultural do xadrez

Celso Castro1





O xadrez é um jogo especial por combinar várias características. Em primeiro lugar, o acaso não existe no xadrez: ninguém ganha uma partida porque “teve sorte”, nem perde porque “teve azar”. Trata-se de um jogo movido apenas pelo raciocínio dos dois jogadores, que são os únicos responsáveis pelo resultado. Nesse sentido, pode ser dito que trata-se de um jogo perfeitamente existencialista ¾ nele estamos, como numa expressão de Sartre, “sós e sem desculpas”.


Em segundo lugar, o xadrez é de extrema complexidade. Jogado num tabuleiro de 64 casas, cada jogador tem inicialmente 32 peças de seis tipos, cada qual com importância, movimentos e possibilidades de captura específicos. Apenas os quatro primeiros lances podem produzir cerca de 72 mil diferentes posições. Os dez primeiros lances podem ser jogados de cerca de 170 seguido de 27 zeros maneiras diferentes. Trata-se, portanto, de um jogo de possibilidades inesgotáveis.

Em terceiro lugar, o xadrez é especial por sua antiguidade histórica.2 Sua origem é controversa. Alguns pesquisadores acham que surgiu no Egito ou na China, mas geralmente considera-se que o xadrez teve origem num jogo com o nome sânscrito de chaturanga, que já existia na região do Ganges, na Índia, no início do século VII. É possível que tenha sido inventado vários séculos antes. De qualquer forma, é jogado, com poucas variações importantes, por mais de mil anos.


Outra característica notável do xadrez é que as partidas podem ser registradas e posteriormente reproduzidas, lance a lance. Com isso, o acervo histórico de partidas  vai sendo sempre aumentado -- e, como todo acervo, o do xadrez possibilita a existência de uma memória sobre o jogo que é uma fonte de aprendizagem e prazer estético. Existe, por exemplo, um problema de xadrez composto por um califa árabe chamado Mutasin Billah em 840 d.C. Temos também o registro de uma partida jogada em 940 d. C. e vencida por um grande jogador árabe de origem turca chamado As Suli (c.880-946), que encantava a corte em Bagdá no início do século X. Sobre esse jogador chegou até nós o comentário de um homem importante da época que, perguntado sobre a beleza das flores de um determinado jardim, respondeu que a forma de As Suli jogar xadrez -- isto é, seu estilo -- era mais bonita do que aquele jardim e todas suas flores. O fato de podermos reproduzir essa partida e igualmente sentir seu encanto e beleza preservados por 1050 anos é uma característica que confere ao xadrez um lugar único entre todos os jogos.


Finalmente, o xadrez é um jogo especial por sua extraordinária difusão através das mais variadas culturas e civilizações. Esse é um ponto sobre o qual gostaria de me deter com mais atenção. Como disse, no início do século VII existia na Índia um jogo chamado chaturanga, considerado precursor direto do xadrez. Esse jogo foi disseminado através do continente asiático principalmente pelos budistas, e adaptado ao acervo cultural de diversos países, como China, Coréia e Japão.

A difusão para o Oeste é razoavelmente bem documentada. O jogo alcançou a Pérsia por volta de 625, recebendo o nome de chatrang. Após a conquista árabe da Pérsia (631-51), o jogo, agora batizado com o nome árabe shatranj, conheceu uma época de grande florescimento. O islamismo proibia os jogos de azar, mas o shatranj era considerado um jogo de guerra, e, por isso, permitido. Vários califas tornaram-se aficcionados do jogo, e os melhores jogadores recebiam dinheiro para jogar, ensinar e escrever livros.


O shatranj foi levado para a Rússia a partir do século IX, principalmente através da rota de comércio Mar Cáspio-Volga. Cristãos bizantinos difundiram o jogo pelos Bálcãs e Vikings fizeram o mesmo na região do Báltico, tudo isso num período anterior à conquista mongol de 1223. Os mongóis também apreciaram o jogo, especialmente  na corte do imperador Tamerlão. O shatranj chegou à Europa Ocidental entre os séculos VIII e X por três rotas: inicialmente com os invasores mouros da Península Ibérica; depois, através do Império Bizantino no Leste, e, finalmente, com os  sarracenos (invasores islâmicos da Sicília). Por volta do ano 1000 o jogo já era amplamente conhecido na Europa.


A Igreja a princípio se opôs ao jogo, possivelmente devido ao uso freqüente de apostas. Surgiram alguns editos proibindo o clero de jogar, notadamente um do cardeal Damiani em 1061. Entretanto, por volta do século XIII essa proibição foi relaxada ou esquecida, e o xadrez passou a gozar de popularidade entre várias ordens religiosas. Alguns de seus membros inclusive usaram o xadrez em alegorias conhecidas como “moralidades”, comuns na literatura européia da Idade Média, e que tentavam dar uma explicação simbólica ou alegórica do jogo, encontrar paralelos entre a organização da vida e atividade humanas e o xadrez. Essas alegorias geralmente consideravam o jogo como emblemático da condição social da época.

Vejamos um exemplo dessas “moralidades”. A mais antiga conhecida é da metade do século XIII, e ficou conhecida como “moralidade de Inocêncio”, por ter sido atribuída ao papa Inocêncio III (papa entre 1198 e 1216).Ao que tudo indica,  no entanto, foi obra de um monge galês. O texto diz o seguinte:3

“Este mundo todo é como um tabuleiro de xadrez: uma casa é branca, outra  casa é preta, e assim representa o duplo estado de vida ou de morte, de graça ou pecado. A família que habita esse tabuleiro é formada pelos homens deste mundo, que
-- tal como as peças saídas todas da mesma bolsa -- procedem todos de um só ventre materno. E, tal como as peças, assumem seus postos nos diferentes lugares deste mundo, cada um com sua própria denominação.    O primeiro é o Rei, depois a Rainha, em terceiro lugar a Torre, em quarto o Cavalo, em quinto o Bispo e em sexto o Peão. E o caráter do jogo é tal que um toma o outro e, com o jogo terminado, assim como todos tinham saído da mesma bolsa, a ela voltam. E então já não há diferença entre o Rei e o pobre Peão, pois acabam do mesmo modo o rico e o pobre. E com  freqüência acontece que, quando se devolvem as peças, o Rei fica por baixo, no fundo do saco; e assim também acontece com os grandes que ao sair deste mundo são sepultados no inferno; enquanto os pobres são levados ao seio de Abraão.”


Temos aqui uma alegoria bastante explícita do nascimento e morte como comuns a toda a humanidade. Essa imagem foi muito popular através de toda a Idade Média, e mesmo depois. É mencionada, por exemplo, no Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Aliás, há muitas referências ao xadrez em fontes literárias medievais, principalmente romances. Há passagens sobre reis resolvendo questões de Estado através do jogo, condenados jogando enquanto esperavam a execução, tabuleiros mágicos feitos pelo mago Merlin etc. Rabelais tem uma longa descrição de um jogo de “xadrez vivo”, isto é, com pessoas ocupando o lugar de peças. Mas voltemos à “moralidade”, que prossegue descrevendo agora o movimento das peças:

“A Rainha move-se e toma [isto é, captura peças adversárias] na diagonal [essa é uma regra antiga], de modo torto, pois a mulher é tão cobiçosa que só toma tortamente, por obra da rapina e da injustiça. A Torre é o justiceiro que percorre toda a terra em linha reta como sinal da justiça com que tudo julga e de que por nada deve  seu ofício corromper-se. [...] O movimento do Cavaleiro é composição de reto e torto. O reto, representando o direito que tem, em justiça, como senhor da propriedade, de cobrar impostos e de impor justas penas conforme o exija o delito; representando as injustas extorsões a que submete os súditos. [...] Os Bispos movem-se oblíqua e tortuosamente duas casas [outra regra de movimento antiga] porque muitos prelados  se pervertem pelo ódio, amor, presentes, ou favores para não corrigir os delinqüentes nem ladrar contra os vícios, tratando os pecados como um terreno arrendado por uma taxa anual. E assim enriquecem o diabo, fomentando os vícios ao invés de extirpá-los se tornam procuradores do diabo. [Observar o anticlericalismo do texto!] Os Peões são os pobres que andam uma casa em linha reta, pois enquanto o pobre permanece na sua simplicidade vive honestamente, mas, para tomar, se corrompe e o faz tortamente, pois pela cobiça se bens ou honras, sai do reto caminho com falsos juramentos, adulações ou mentiras.”


Finalmente, há uma passagem interessante sobre o desfecho do jogo:
  
“O diabo diz: xeque! incitando ao mal e ferindo com o dardo do pecado. E se o atingido não sai rapidamente dizendo: livre!, pela penitência e compunção do coração, o diabo lhe diz: mate!, levando sua alma ao inferno de onde não se poderá livrar de modo algum.”


Pulei propositalmente a parte referente aos movimentos do Rei, porque aqui há um ponto importante. Deve ter ficado claro que o princípio subjacente aos movimentos das peças, para o autor da “moralidade”, é que um movimento reto simboliza um movimento/ação moralmente correto, justo; um torto ou na diagonal significa um movimento/ação moralmente incorreto, injusto. Ora, o Rei move-se e captura uma casa em todas as direções ¾ com movimentos, portanto, “retos” e “tortos”. Entretanto, a figura real era considerada de origem divina e fonte da justiça, e, portanto, não podia fazer movimentos “tortos” na vida. Qual a solução? O moralista falsificou os  movimentos da peça, suprimindo os movimentos “tortos” e dizendo que o Rei se movia apenas retamente.4 No entanto, naquela época ¾ como hoje ¾ essa peça se movia e capturava em todas as direções.


Temos aqui um exemplo claro de que o interesse maior dessas “moralidades” era com a alegoria e não com o jogo. Isso não quer dizer que as moralidades não tenham  tido  importância  para  o  desenvolvimento do jogo na Europa.  Possivelmente elas divulgaram o xadrez e ajudaram a diminuir o preconceito eclesiástico inicial. Mas, como o historiador do xadrez Murray nota5, “para o moralista a fábula era de muito maior importância do que os detalhes do jogo, e os detalhes tinham que se encaixar na explicação, e não o inverso.” O xadrez fornecia apenas a moldura para as alegorias. O alvo das “moralidades” era outro.

Nem todas as alegorias medievais, é bom notar, eram de fundo religioso. Há um poema francês do século XIV, chamado Les échecs amoureux que é a descrição, movimento por movimento, de um jogo entre uma dama e seu pretendente. O paralelo entre amor e xadrez aparece também num livro publicado em 1497 pelo espanhol Luís Lucena, intitulado Repetición de amores e arte de axedrez.

Por volta de 1475, ocorreram algumas mudanças significativas nas regras do jogo, que modificaram o xadrez árabe e deram origem ao xadrez moderno na Europa Ocidental. Basicamente, o ritmo do jogo foi acelerado e algumas peças substituídas.  Os primeiros livros sobre a nova forma do jogo foram todos escritos na Península Ibérica.


Na segunda metade do século XVI, o jogo teve um grande desenvolvimento, e os melhores jogadores passaram a ser patrocinados por mecenas, inclusive  reis. Nessa época também começaram a surgir torneios. O mais antigo documentado ocorreu em 1575 na corte de Felipe II da Espanha, quando se enfrentaram jogadores espanhóis e italianos. Venceu o italiano Giovanni Leonardo, que recebeu mil ducados, uma capa de arminho e durante vinte anos sua cidade natal Cutri, da Calábria, esteve isenta de tributos.

Desde então, o xadrez atravessou todas as tendências históricas e modas culturais que surgiram. A partir de 1730, passou a ser muito jogado em cafés, como o de la Régence, em Paris, um dos mais famosos pontos de encontro de xadrez de todos os tempos, com frequentadores ilustres como Voltaire, Rousseau, Robespierre, Benjamin Franklin, Napoleão e Richelieu. O xadrez também não ficou alheio ao igualitarismo iluminista da fase pré-revolucionária. Cinqüenta anos antes da tomada da Bastilha, foi publicado o livro fundador do xadrez moderno, por um compositor de música e jogador de xadrez chamado Philidor (1726-95) ¾ L’ analyse des échecs, que teve enorme sucesso. Nesse livro, é pela primeira vez descrita a estratégia do jogo como um todo e afirmada a importância decisiva da formação de peões, até então os elementos menos considerados do jogo, por serem o de menor poder ofensivo. Mas  era época do Iluminismo, e os peões foram revalorizados por Philidor numa frase famosa: “eles são a alma do xadrez.”


A partir daí, a teoria sobre o jogo foi desenvolvida de forma ininterrupta.  Surgiram várias “escolas” que preconizavam diferentes estilos ou maneiras de conduzir as partidas de xadrez, como a “Escola Modenense” (de Modena, uma cidade italiana), que em geral se opunha aos ensinamentos de Philidor, preconizando a importância fundamental do ataque rápido e direto ao Rei inimigo através das peças. No final do século XIX, Wilhelm Steinitz (1836-1900) desenvolveu críticas ao xadrez de estilo “romântico”, que defendia o ataque rápido a todo custo, e mostrou a importância da defesa e do acúmulo de pequenas vantagens ao longo do jogo. Ele propunha uma apreciação científica, objetiva do jogo de xadrez. Já um adversário seu, o médico alemão de origem judaica Siegbert Tarrasch (1862-1934), via a partida de xadrez como a imagem de uma guerra: a fase de abertura da partida correspondia à mobilização, ao desenvolvimento estratégico e ao engajamento nos combates iniciais; o meio da  partida era a batalha propriamente dita, onde se decidia a vitória, e o final, a realização da superioridade obtida nas fases anteriores. Em sua teoria do jogo, Tarrasch  distinguia  três  elementos  principais:  as  forças,  o  espaço  e  o  tempo,  que   seriam permutáveis entre si, um podendo transformar-se no outro. Na década de 1920 surgiu, em reação a princípios considerados formalistas e ortodoxos como os de Tarrasch, um movimento batizado de “hipermodernismo”, cujos expoentes permitiam ao adversário ocupar a posição central do tabuleiro ¾ mantendo no entanto um controle estratégico, à distância, desse centro ¾ para depois contra-atacar e demolir suas posições.


Não vou falar de todas as “escolas” e tendências modernas. Mencionei algumas apenas para dar uma idéia da variedade de estilos e concepções a respeito do jogo. Hoje em dia, o tempo das “escolas” passou, importando mais o estilo individual para determinar a maneira pela qual os grandes jogadores atuam. Essas “escolas” têm a  ver, é bom notar, com grandes jogadores, e não com a maioria absoluta de jogadores amadores, que não dominam sutilezas teóricas a respeito de estratégia, nem são virtuosos táticos ¾ jogam apenas por distração.

Evitarei a soberba intelectual de “explicar” ou “decifrar” o “significado” do xadrez, reduzindo-o a fórmulas do tipo “o xadrez representa não-sei-o-quê” ¾ a guerra, a luta, a vida etc. A esse respeito, gostaria de lembrar o livro do filósofo holandês Johan Huizinga, publicado em 1938, Homo Ludens, que tem o subtítulo de “O jogo como elemento da cultura.”6 Observar que é “da” cultura, e não “na” cultura, porque para Huizinga a própria cultura possui um caráter lúdico: ela é “jogada”. É um livro difícil,  com algumas passagens bastante obscuras. De qualquer forma, um dos pontos altos é quando Huizinga ressalta os perigos do reducionismo racionalista: o jogo em si não se pode explicar. Ele possui um caráter estético, de divertimento, que resiste a toda análise e interpretação lógicas: o importante do jogo está no próprio jogo, e não, como nos rituais, em algo além dele, que ele “representa”.

Uma afirmação que parece bastante plausível em relação aos jogos em geral é que eles estão intrinsecamente relacionados às características sociais e culturais  das sociedades em que são jogados, que são ritualizações de componentes culturais dessas sociedades, e que não podem ser “compreendidos” sem que o analista leve em consideração esses vínculos. Essa afirmação segue um esquema de pensamento bastante característico das ciências humanas contemporâneas, e que é aplicado em vários contextos e a vários objetos. A história do jogo de xadrez, no entanto, coloca alguns problemas à universalidade dessa afirmação, porque trata-se de um jogo transcultural, presente em culturas ¾ e mesmo civilizações ¾ muito distantes  no tempo, no espaço e em características culturais. Uma crítica “nominalista” poderia dizer que “xadrez” é apenas uma palavra que, apesar de comum a diferentes culturas, representa na realidade jogos diversos, posto que jogado e representado culturalmente de diferentes formas. Isso pode ser válido para outros jogos, talvez mesmo para a maioria, mas no caso do xadrez esse argumento é fraco. As “moralidades”, “escolas” e outras apropriações culturais do jogo são claramente acessórias. Para além delas, permanece uma estrutura de jogo razoavelmente imutável e que atravessou dessa forma diferentes contextos culturais através de vários séculos.


Para encerrar, um poema:


“O thou whose cynic sneers express The censure of our favourite chess, Know that its skill is science’ self,
Its play distraction from distress;
It soothes the anxious lover’s care, It weans the drunkard from excess; It counsels warriors in their art,





When dangers threat, and perils press; And yield us, when we need them most, Companions in our loneliness.”7

Esse poema foi escrito pelo califa al-Mu‘tazz, por volta do ano 900 ¾ ou seja, há mil e cem anos. É bem possível que a atração que o xadrez exerce sobre quem o joga hoje seja a mesma exercida sobre aficcionados de outros tempos, de outras culturas. Isso, por si só, seria suficiente para tornar o jogo de xadrez uma experiência humana muito especial.





NOTAS


1. Pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, doutorando em Antropologia Social no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ, autor de O espírito militar: um estudo de antropologia social na Academia Militar das Agulhas Negras (Jorge Zahar, 1990), co- organizador de Visões do golpe: a memória militar sobre 1964 (Relume-Dumará, 1994) e Anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão (Relume-Dumará, 1994).

2. Para a história do xadrez, baseei-me em vários livros, principalmente: David Hooper  & Kenneth Whyld, The Oxford companion to chess (Oxford, 1988); H. J. Murray, A history of chess (Oxford, 1913); R. N. Coles, The chess-players week-end book (London, Pitman& Sons, 1950) e Luiz Jean Lauand, O xadrez na Idade Média (Perspectiva/EDUSP, 1988).

3. Uso a tradução de Lauand, op. cit., p. 49-51.

4. Ver Murray, op. cit., p. 530-1.

5. Op. cit., p. 530.

6. Edição brasileira: Perspectiva, 1980.


7. The Oxford companion to chess, p. 308.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DE BOBBY FISCHER

BOBBY FISCHER
Por Yasser Seirawan

Quando eu estudava na Garfield High School, em Seattle, meu professor de física pediu à classe que escrevesse um trabalho sobre a teoria do Big Bang (A Grande Explosão) da criação do universo. Em suas aulas, ele parecia especialmente entusiasmado com a teoria, elogiando-a efusivamente. Eu não compartilhava do entusiasmo dele, tendo dúvidas sobre a teoria, mas, mesmo assim, escrevi diligentemente um ensaio intitulado “No princípio”. Ele apresentava o conceito do Big Bang e eu escrevi favoravelmente sobre como a teoria fazia sentido. Recebi um “A+” pelo trabalho e desde então penso sobre o “Princípio”.

A LENDA FISCHER SE INICIA

“O Big Bang”, não apenas para a minha carreira de xadrez, mas para muitos enxadristas americanos, foi o sucesso de Robert James Fischer em 1972 (1943-2008). Naquele ano, ele se tornou o décimo primeiro Campeão Mundial de Xadrez segundo a Federação Mundial de Xadrez. Sua vitória no match de 1972 contra Boris Spassky, da União Soviética, teve um papel central no meu entusiasmo pelo xadrez. Seu sucesso impulsionou o povo americano para o xadrez e o match com Spassky foi notícia de primeira página por vários meses. Logo todos sabiam da história: ele foi o americano que enfrentou “sozinho” o rolo compressor de xadrez da União Soviética, derrotou-os todos sucessivamente e ganhou a coroa, tornando-se o Campeão do Mundo. Meu círculo de amigos íntimos de xadrez estava em polvorosa. “Bobby”, como era carinhosamente conhecido por todos, era simplesmente o brinde dos tempos. O fenômeno Bobby Fischer foi extraordinário.


A revista Life fez uma grande reportagem de capa sobre ele, enquanto a mídia acompanhava todos os seus movimentos dentro e fora do tabuleiro. Após sua vitória em Reykjavik, na Islândia, em 1972, Bobby foi homenageado com um desfile na cidade de Nova Iorque e recebeu as chaves da cidade; apareceu no programa Tonight de Johnny Carson; fez uma paródia com Bob Hope; o presidente Nixon o saudou como um herói nacional... E então, no auge de seu reconhecimento e conquistas profissionais, ele deixou o palco e desapareceu.

ONDE ESTAVA O BOBBY?

Dizer que a situação era exasperante seria um eufemismo. Todo fã de xadrez nos Estados Unidos aguardava sua próxima partida, torneio e confronto. A impetuosa marcha de Bobby pelo ciclo do Campeonato Mundial e na disputa pelo título tinha sido tão dominante que simplesmente não havia dúvida de que ele seria o vencedor no próximo torneio ou evento em que competisse. Vivenciamos uma ansiedade coletiva enquanto aguardávamos o anúncio de quando e onde ele iria jogar novamente. Essa pausa em sua carreira coincidiu com a época em que eu comecei a jogar e me deu uma chance de tentar me igualar. Eu aprendi a repetir suas maiores vitórias, inclusive a “Partida do Século” contra Donald Byrne. Uau! Disputada quando ele tinha apenas 13 anos.

Eu me emocionava com as histórias sobre a sua partida contra Robert Byrne no Campeonato Mundial dos Estados Unidos. Bobby tinha sacrificado uma peça e os Grandes Mestres que faziam comentários durante a partida diziam sabiamente ao público que ele tinha jogado levianamente e agora estava perdido... Em seguida, para a surpresa deles, Byrne abandonou a partida. As histórias eram todas muito inspiradoras. Era como se Bobby estivesse em um mundo próprio.


Os meses se passavam e ainda não se tinha notícia sobre o esperado retorno triunfal de Bobby ao tabuleiro. A preocupação cresceu. O próprio Bobby não havia dito a todos que, como Campeão do Mundo, ele iria jogar com frequência e manter um papel ativo jogando em todos os eventos maiores e mais importantes? Citava-se amplamente que Bobby teria dito em uma entrevista: “Tudo o que eu quero fazer é jogar xadrez”. Onde estava ele? Nesse período de trevas no xadrez, parecia que ele estava se escondendo – mais especificamente, evitando toda a imprensa e os paparazzi. Ele parecia especialmente tímido diante das câmeras. O que ele estava fazendo? Estava estudando? Estava jogando “partidas de treinamento particulares” para manter sua vantagem? Bobby não estava apenas ausente – ele tinha desaparecido completamente. Um vácuo de xadrez havia sido criado. O desfile tinha parado, o líder era um desertor.

Em 1974, apareceu um novo livro, escrito por Brad Darrach, repórter da revista Life, intitulado Bobby Fischer vs. the Rest of the World. Ele causou sensação em meu círculo de amigos. Devorei o livro ansiosamente, saboreando todas as revelações sobre as opiniões e o comportamento de Bobby. Várias passagens me fizeram rir alto, imaginando o que Bobby teve de suportar durante o vendaval a seu redor. “Tire os russos das minhas costas”, foi o que ele disse ao coronel Ed Edmondson, o chefe de sua delegação, e essas palavras adquiriram vida própria. “Saia das minhas costas!” ouvia-se nos clubes de xadrez e no café Last Exit, onde aprendi a jogar e usar um relógio de xadrez para jogar partidas de Blitz, ou de cinco minutos.


As especulações sobre o que Bobby estaria fazendo ou deixando de fazer pareciam crescer e tornar-se mais extravagantes com o passar do tempo. A Igreja Universal do Reino de Deus de Garner Ted Armstrong parecia desempenhar um papel central na vida de Bobby. Essa Igreja parecia ser uma espécie de culto apocalíptico de fundamentalistas cristãos que acreditavam na profecia do Novo Testamento. O apocalipse estava sobre nós e somente os verdadeiros crentes seriam salvos. Circularam rumores de que Bobby tinha doado os seus ganhos com o Campeonato Mundial para a Igreja. Sua secretária particular, “Claudia”, um membro da Igreja, era responsável por entrar em contato com Bobby e repassar os convites e propostas comerciais. Ela parecia ser o único canal de contato com Bobby. Espalhavam-se rumores sobre ações judiciais de Chester Fox, o homem que tinha os direitos de filmagem do jogo de 1972, assim como de uma ação judicial contra os editores do livro de Darrach. Todos os detalhes eram avidamente compartilhados.

Fiquei sabendo que Bobby tinha recebido uma oferta de um milhão de dólares para endossar um xampu em um comercial. Um milhão de dólares! Que quantidade assombrosa de dinheiro! Dinheiro fácil com certeza. Bastava tornar-se Campeão Mundial de Xadrez e patrocinadores e ofertas comerciais bateriam à sua porta. Como Bobby tinha reagido a uma oferta tão maravilhosa? A resposta que nos surpreendeu foi que Bobby recusou. Recusou um milhão de dólares? Seria possível? E, em caso afirmativo, por quê? A resposta foi que Bobby recusou a oferta comercial pela mais simples das razões: ele não usava aquela marca particular de xampu. Esta resposta impressionante provocou incrédulos minutos de silêncio seguido por gargalhadas. Não parecia possível! “Sério?” todos perguntamos. Sim, fomos informados – Bobby é uma pessoa muito “pura”, que nunca iria endossar um produto no qual não acredita pessoalmente. Hmm.


Essas histórias me fizeram reavaliar toda a minha noção de endossos comerciais. Será que eu seria tão puro? Rejeitaria uma oferta de um milhão de dólares porque eu não usava o produto em questão? Certamente que não! Eu também não possuía um Rolls Royce nem um relógio Rolex Midas, mas por um milhão de dólares eu certamente os indicaria como excelentes produtos, especialmente se algumas amostras fossem fornecidas como parte de meu apoio! Afinal, eu deveria ter a chance de experimentá-los. Histórias sobre Bobby pululavam. Era impossível distinguir mito de realidade. Repórteres escreviam tudo o que imaginavam, e não havia ninguém para desmenti-los. Toneladas de lixo eram vomitadas e constantemente recicladas. A ficção tornou-se realidade, repetida por um texto atrás do outro. Os amigos, perplexos com essas reportagens, pediam a Bobby que escrevesse cartas para corrigir os autores, mas geralmente sem sucesso. Meus amigos de xadrez de Seattle ansiavam por qualquer notícia de Bobby. A sabedoria reciclada era a de que ele estava com a Igreja Universal do Reino de Deus, que Claudia conduzia seus negócios e que, em vez de treinamento de xadrez, ele estava concentrado no processo sobre o livro de Brad Darrach. Não havia apoios comerciais, nem torneios, nem notícias. Estávamos dolorosamente vazios de histórias para contar uns para os outros.

Artigos constantemente repetiam e alardeavam o seguinte: Bobby desprezava a imprensa, recusou todos os pedidos de entrevista e não queria que as pessoas soubessem onde ele vivia: que levava uma vida solitária em Pasadena, Califórnia, usando transporte público para fazer viagens à Biblioteca Pública de Los Angeles para fazer pesquisas para seu processo judicial; que todos os seus amigos lhe prometeram sigilo e que estava afastado de sua família.


Embora seja apenas especulação da minha parte, parece que a ação judicial de Bobby contra Brad Darrach teve um papel central em sua vida por muitos anos e terminou em desastre para ele. Em sua edição de junho de 1977, a revista Chess Life & Review  relatou:
“A ação judicial de 5 milhões de dólares por invasão de privacidade movida por Bobby Fischer contra o autor Brad Darrach, da Time-Life International e Stein and Day Publishers, foi indeferida pelo juiz do Tribunal Regional da Califórnia, Matt Byrne. Fischer acusara o autor e os editores de quebrar promessas escritas e orais de não publicar detalhes de sua vida privada. Furioso com o resultado, Fischer disse ao juiz David Byrne: ‘Não pagarei um centavo de imposto de renda até que seja feita justiça neste caso.’ Palavras impressionantes e reveladoras de Bobby. Seu profundo antagonismo às autoridades federais dos Estados Unidos tinha começado.

O MATCH DE 1975

Um dia, um raio de luz nos trouxe energia: Bobby teve uma carta publicada na edição de novembro de 1974 da Chess Life & Review, na qual ele propunha novas, ou talvez antigas, regras para o match de defesa do título programado para 1975. Em vez das regras do melhor de 24 partidas que ele usou para derrotar Boris Spassky, Bobby queria retroceder cem anos para as regras de Wilhelm Steinitz, propondo um confronto do primeiro a ganhar dez partidas, desconsiderando-se os empates. Estas regras incluíam a condição de que, se o Campeão Mundial que estivesse defendendo o título (Fischer) vencesse nove partidas, ele não poderia perder o match. O Campeão Mundial teria que vencer dez partidas para ganhar a competição, assim como o Desafiante – mas, se o Campeão Mundial vencesse nove partidas, o pior que poderia acontecer seria um empate com nove vitórias de cada um. O prêmio seria dividido igualmente em caso de um empate de nove vitórias, mas o Campeão Mundial conservaria seu título.

A proposta de Bobby provocou imensas discussões nos círculos e revistas de xadrez. Matemáticos escreveram extensamente sobre como um empate de 12 a 12 com o Campeão conservando seu título era mais vantajosa para o Campeão Mundial do que as regras de obrigação de vitória em dez partidas. Na Chess Life & Review, Fischer explicou que, como os empates não contavam, os dois adversários estariam motivados a jogar por uma vitória em todas as partidas. Era tudo muito excitante. Bobby estava voltando! E também não jogaria apenas as 24 partidas. Quem sabia quanto tempo iria durar um match contra o Desafiante soviético Anatoly Karpov? Seriam meses de partidas. Ou jogaria?


A instituição de xadrez que teria que aprovar as mudanças nas regras era a Federação Internacional de Xadrez (FIDE) que, como muitas instituições internacionais da época, era dominada pela União Soviética e seus aliados. As propostas de Bobby seriam aceitas pelos delegados nacionais na Assembléia Geral da FIDE, ou as mudanças propostas por Bobby seriam rejeitadas? De repente, pessoas que nada sabiam sobre a FIDE começaram a aprender sobre seu Comitê Central, suas regras e seus procedimentos de votação. Era tudo muito estranho, mas, de alguma forma, também fascinante.

Mais ou menos na época em que se acirrava a discussão sobre se as propostas de Bobby seriam mais justas para o Desafiante do que uma disputa de duração fixa, na qual os empates aproximavam o líder do título cobiçado, surgiram rumores de que o ditador filipino Ferdinand Marcos tinha oferecido cinco milhões de dólares para sediar o Campeonato Mundial de Xadrez de 1975. Todos se voltaram para a FIDE – certamente os delegados aprovariam as mudanças nas regras, Bobby estaria na disputa e milhões de dólares estariam em jogo. Com 20% do dinheiro indo para a FIDE, seria uma oferta boa demais para ser recusada. Estávamos tontos de empolgação. A votação na FIDE seria uma formalidade. Então o mundo do xadrez foi engolido por um buraco negro. O ex-Campeão Mundial Max Euwe, na época presidente da FIDE, convocou um congresso especial da FIDE para votar sobre as propostas de Fischer para as regras do Campeonato Mundial. A votação foi muito disputada. Meu amigo coronel Ed Edmondson, que tinha sido diretor executivo da United States Chess Federation (USCF), ou Federação de Xadrez dos Estados Unidos, contou-me sua história nos bastidores do evento, que eu resumi como segue: “A disputa seria acirrada. Os dois lados estavam usando todos os meios possíveis. Os soviéticos estavam torcendo braços e cotovelos e as nações ocidentais estavam fazendo o mesmo. Aquela era a nossa chance de levar o xadrez a novos patamares. A perspectiva de um match de cinco milhões de dólares disputado nas Filipinas, confrontando um americano e um soviético, colocaria o xadrez com firmeza nas capas de jornais do mundo inteiro outra vez. O confronto provavelmente duraria meses. Fazíamos lobby como se não houvesse amanhã. Sem dúvida, não haveria amanhã. “Eu conhecia o Bobby muito bem. Ele queria as regras de Steinitz e acreditava genuinamente que elas eram mais justas para os dois adversários. Ele as queria mesmo antes de jogar contra Spassky, mas como Desafiante ele não tinha chance de mudar as regras. Eu sabia, simplesmente sabia que, se as regras de Steinitz não fossem aprovadas, Bobby renunciaria ou perderia seu título. As apostas eram radicais assim. Antes da votação, eu estava nervoso, porém confiante. Eu achei que ele iria ganhar, mas com uma margem pequena. Perdemos por uma margem muito estreita. Ao que parece, o delegado mexicano mudou seu voto no último instante possível. Um ano depois, uma delegação de Grandes Mestres soviéticos visitou o México em uma turnê de cortesia realizando seminários e simultâneas gratuitas. “Os soviéticos conseguiram sua vitória, mas atrasaram o xadrez em uma década ou mais.”


Lembre-se de que essa votação ocorreu em uma época em que os soviéticos e seus satélites costumavam vencer votações nas Nações Unidas com margens retumbantes. O fato de a disputa ter sido tão acirrada é realmente um atestado de o quanto foi forte o lobby da USCF. O resultado da decisão da FIDE não poderia ter sido mais cataclísmico. A previsão mais terrível se concretizou: praticamente no momento em que a contagem de votos foi anunciada e a moção pela mudança de regras perdida, Bobby declarou sua renúncia como Campeão Mundial de Xadrez da FIDE. Posteriormente, contudo, Bobby declarou que renunciara “apenas” seu título da FIDE e que ainda era Campeão Mundial.

Em vez de aprovar as regras de Steinitz de “precisar vencer dez partidas”, que Bobby queria, os delegados da FIDE buscaram um meio-termo e aprovaram um conjunto de regras de “precisar vencer seis partidas”. Em caso de um empate de cinco a cinco, o match continuaria até que a próxima partida decisiva fosse disputada. As regras de “precisar vencer seis partidas” eram defendidas por José Raúl Capablanca e costumam ser chamadas de “Regras de Londres”. Isso era típico na tomada de decisões da FIDE então e sempre. Dada uma escolha entre “A” ou “B”, os delegados da FIDE invariavelmente aprovavam um plano “C”, o qual era um híbrido entre as duas opções que geralmente sublinhavam e combinavam os piores aspectos das duas opções originais e, ao mesmo tempo, não possuíam qualidades próprias compensadoras.


Naquela época e desde então, eu achava que um match de 24 partidas era mais do que suficiente para determinar o melhor jogador. Eu gostava do sistema de ter que vencer dez partidas pelo aspecto dramático, pois os jogadores teriam que correr riscos para vencer o match, mas a ideia de uma competição “sem data para terminar” me preocupava. Um match deste tipo poderia se estender por meses, possivelmente arruinando o orçamento do patrocinador e também enfadando o público. Os organizadores de um match de dez vitórias poderiam ser financeiramente aniquilados ao fixar um local para a competição. E se o match se decidisse em poucas semanas e o lugar tivesse sido alugado por muitos meses? Inversamente, e se após muitos meses o placar fosse de apenas seis vitórias para um dos competidores? Como estender o contrato ou encontrar um novo local? E como um match realmente longo que durasse muitos meses afetaria o ciclo de três anos? Por princípio, o perdedor do match tinha que entrar no ciclo nos estágios iniciais, mas ele poderia já estar em andamento. Após a renúncia de Bobby em abril de 1975, o Desafiante soviético Anatoly Karpov foi declarado Campeão Mundial por forfeit [falta].


Os apreciadores americanos de xadrez ficaram amargamente decepcionados, sentindo, sem dúvida, como Bobby sentia, que eles e todo o mundo do xadrez tinham sido privados de um duelo excitante. O novo Campeão Mundial, Anatoly Karpov, passou sua carreira tentando reverter a opinião pública de que ele não era um verdadeiro campeão.

A LENDA CRESCE

Apesar da desistência, o interesse em Bobby Fischer era tão palpável que, quando eu joguei no Aberto Americano em 1976 em Santa Monica, correu um falso boato no salão do torneio de que um “homem de barba, possivelmente Bobby” estava no prédio. O salão de jogos ficou praticamente vazio. Esta era uma grande proeza em um evento suíço grande, onde uma sirene com quatro alarmes mal conseguia tirar os competidores de seus tabuleiros. (Lembre-se de que Pasadena, a cidade natal de Bobby, ficava apenas a uma hora de carro de Santa Monica.)

Encontrar uma comparação para ilustrar o impacto da ausência de Bobby é mais do que difícil, mas vou tentar. Atualmente somos abençoados com alguns talentos excepcionais no xadrez no mundo inteiro: Yifan Hou, uma chinesa de 15 anos, é apresentada como futura Campeã Mundial; Parimarjan Negi, da Índia, Sergey Karjakin, da Ucrânia, Teimour Radjabov, do Azerbaijão, Hikaru Nakamura, dos Estados Unidos, Daniel Stellwagen, da Holanda, e David Howell, da Inglaterra, todos se destacam; e, é claro, o mais cotado de todos, Magnus Carlsen, da Noruega. Como é emocionante ver todas essas jovens estrelas competirem e avançarem lentamente rumo às mais altas honrarias. Embora seja difícil reconstituir a época de 1974 e 1975, para colocar o interesse em Bobby em perspectiva, leve embora todas essas promissoras estrelas da atualidade e faça-as declarar coletivamente que estão desistindo do xadrez para sempre. O desapontamento sentido pela ausência de Bobby não poderia ser maior. Eu, por exemplo, fiquei totalmente murcho.


Depois de 1975, tive que me consolar jogando por meio de My 60 memorable games e também ouvindo histórias de colegas que tinham conhecido Bobby pessoalmente. Eis, então, uma lista de “Histórias de Bobby” de que eu sempre gostei. A maioria delas estou compartilhando pela primeira vez...

As duas primeiras são de Robert Byrne, que, além de ser um dos Grandes Mestres mais bem-sucedidos dos Estados Unidos, escreveu para a Gray Lady, o The New York Times, por décadas. Resumirei duas histórias de Byrne como segue: “Foi durante a disputa das Finais dos Candidatos de 1971, em Buenos Aires, com Tigran Petrosian. Eu estava no centro de imprensa preparando minha coluna. Todos os soviéticos estavam lá, olhando para os monitores e analisando o jogo abertamente em uma das mesas centrais. Miguel Najdorf era o centro das atenções e fazia comentários depois de cada lance. Miguel achava que Bobby tinha uma boa posição na sexta partida e então, quase inacreditavelmente, ele fez seu lance, Cc5xd7, trocando seu impressionante cavalo em c5, realmente poderoso, por um dos piores bispos em d7 que uma posição pode ter... “Najdorf quase voou da cadeira. ‘Meu Deus! Ele enlouqueceu!’, ele começou a gritar. ‘Trocar um cavalo desses por um bispo daqueles!’ Najdorf segurou o cavalo para que todos o vissem. ‘Ele não entende nada, nada de xadrez!’ “Os soviéticos praticamente riram e se abraçaram; eles estavam muito contentes com o que todos concordavam ser uma péssima troca. Uma troca que livraria Petrosian do perigo, entende? “Todos olharam para mim, esperando que eu, por ser dos Estados Unidos, tentaria defender a decisão de Bobby, mas eu apenas fiquei em silêncio, explicando que eu tinha uma coluna a escrever e estava ocupado demais para tomar parte naquilo. Secretamente, eu sabia exatamente o que Bobby estava pensando, porque eu tinha analisado com ele muitas vezes. Para Bobby era tudo muito simples. Ele valorizava mais os bispos do que os cavalos. Ponto. Para ele, na posição resultante, seu bispo estava muito melhor do que o cavalo das Pretas. Ele viu que podia centralizar seu rei, bloquear o peão d passado das Pretas e, depois, suas torres e bispo coordenar-se-iam melhor do que as torres e o cavalo, portanto, o jogo estava acabado. Para Bobby, aquela captura de cavalo por bispo era como cravar o último prego no caixão.


“Alguns lances depois da troca, eu estava olhando para o Grande Mestre Alexey Suetin, o técnico de Petrosian, e ele estava de boca aberta e ficando cada vez mais boquiaberto. Quando Petrosian se encontrava prestes a abandonar a partida, seu queixo estava quase na mesa e ele sussurrou: ‘Ele joga de uma maneira tão simples.’ Eu me esforcei muito para me conter, para ser educado e não rir, mas não foi possível. Veja, aquele era o jeito do Bobby jogar. Xadrez clássico simples.”

Existe algo nessa história que me emociona profundamente, a ideia de que o Campeão Mundial tem uma compreensão nitidamente superior a dos outros. Ele tem seus conceitos e com seus lances ele diz: “É assim que eu penso. Refute-me se for capaz”.


A segunda história de Byrne era de 1966:
“Jogamos em Havana na Olimpíada. Os cubanos eram anfitriões maravilhosos. Os momentos mais felizes para mim eram quando Bobby era cortejado. Ele tinha uma suíte ampla bacana e a equipe toda entrava em fila depois da rodada. Bobby reconstituía a partida para nós e nos mostrava como ele havia vencido e por quê. Era simplesmente fascinante. Sua análise era incrível. Era como se os lances fluíssem das pontas de seus dedos. Suas mãos eram grandes e as peças apenas se mexiam, praticamente dançando, e era tão especial. Daí, um desastre se abateu sobre nós... Bobby estava mostrando um jogo à equipe e então fez uma pausa e começou a rir, e ficou rindo e rindo cada vez mais alto. Tentando falar, ele disse: ‘E agora vocês sabem o que o pato jogou? Ele jogou... vocês não vão acreditar...’ Bobby moveu a peça e sumiu debaixo da mesa num ataque de riso convulsivo. “A equipe se pôs a estudar a posição freneticamente. Não conseguíamos entender a risada de Bobby e queríamos compartilhar. Mas, maldição. O lance que seu adversário fez parecia totalmente sensato e eu estava tendo dificuldade para entender onde estava a refutação. Foi então que Bobby se recuperou de seu ataque de riso e conseguiu sair do chão e voltar para o tabuleiro. Ele fez seu lance. Droga! Estava bem debaixo do nosso nariz e era tão óbvio. Eu não tinha visto. Mas quando eu compreendi instantaneamente como aquilo minava totalmente a estratégia do adversário, eu também tive que começar a rir. Uns segundos depois outra pessoa começou a rir, e logo todos estavam rindo também. Mas eu te digo, Yasser, naqueles poucos segundos em que não vi o lance, fiquei em pânico total. Eu não queria que Bobby pensasse que eu também era um pato”.

O lado negro de analisar xadrez com um gênio. Você não quer ser chamado para o ringue para explicar um lance. Quem conheceu “Don” Miguel Nadjorf, o Grande Mestre argentino nascido na Polônia, sabe que ele era um homem de paixões. Veloz para tomar uma decisão em um décimo de segundo, Miguel me contava histórias sobre os campeões por horas a fio. Eu não entendia por que alguém não entrevistava Miguel por algumas horas, pois ele era um ótimo contador de histórias. Eu adorava nossos encontros. Ele tinha inúmeras histórias sobre Bobby, das quais muitas me esqueci, infelizmente. Miguel tinha opinião sobre tudo e, a que segue, discutimos muitas vezes e demoradamente. Estávamos em um restaurante em Buenos Aires jantando nosso “lomo” de costume quando Miguel me disse, “Jasser!” (em espanhol, o “y” muitas vezes é pronunciado como um “j”, e Miguel gostava mais do som de Jasser do que de Yasser; assim, para Miguel – e somente para ele – eu fiquei sendo Jasser) “Você sabe que o Bobby não tem estilo.” Agora, este é o melhor gambito de abertura para uma conversa entre enxadristas que eu já vi. “Quê? Eu não te entendo, Miguel. O que você quer dizer?” perguntei. As opiniões de Miguel eram sempre defendidas com vigor e ele se comprazia em me fisgar e me puxar para discussões animadas e emotivas. Ele era um homem apaixonado que amava demais o xadrez. Explicou sua teoria, sobre a qual penso com frequência. Ela dizia o seguinte: “Quando você me mostra uma partida de Capablanca, eu penso, ‘A-ha, Muito legal. Muito suave. Lances lógicos. Jogo bonito. Deve ser uma partida de Capablanca!’ Depois, você me mostra outra partida e eu penso, ‘Meu Deus! Quem é esse bandido  jogando com as Brancas? Olhe estes sacrifícios descuidados, ousados. E esse lance calmo, também! Incrível! Perdendo duas peças e ele para para fazer um lance desses. E ele venceu! Mas claro, me dou conta, este é Tal.’ E outra partida. ‘Eu não consigo entender o que o jogador está fazendo. Ele está tomando precauções extraordinárias e seu adversário nem sequer está atacando. Agora ele manobrou suas peças para trás e depois para frente outra vez em boas casas. Ele melhora sua posição mas não fez nada concreto. Meu Deus! O adversário está sufocado e simplesmente morto! Onde estava o erro? É claro, este é Petrosian.’ Veja você, Jasser! Eu reconheço o estilo. Mas quando eu analiso uma partida de Bobby, eu não vejo nada. Não tem estilo. Bobby jogava com perfeição. E a perfeição não tem estilo.”


A perfeição não tem estilo. Um conceito muito interessante, se você parar para pensar. Ficamos horas discutindo e, no fim, eu achei a teoria de Miguel muito convincente. Hoje, com o advento dos computadores, essa discussão sobre se a perfeição tem um “estilo” poderia ser retomada. Eu sempre gostei de jogar Blitz e, atualmente, jogo on-line. Às vezes, depois de uma vitória, meu adversário me acusa furiosamente de estar usando um computador e coloca meu nome no “ignorar” sem saber quem eu sou. Quando analiso a partida que venci, ela pode parecer “estilosa”, mas alguns dos lances eram, na verdade, os segundos melhores. As duas coisas combinam? Alguns usam o termo computer-like (semelhante a computador) para descrever um lance, uma estratégia ou o final de uma partida. É esta última parte que eu acho interessante. A expressão computer-like tem uma forte conotação de precisão e perfeição. Mas os computadores vencem de uma maneira complicada. Eles não trocam quando têm vantagem material, uma tendência humana natural e uma prática bem estabelecida para reduzir o potencial de caos. Os computadores empilham complicações em cima de mais complicações, sabendo como vão se sair. Esse jogo dinâmico muitas vezes faz com que os computadores vençam com mais rapidez do que os humanos, que trocam quando têm vantagem material. E, garantindo que fiquem dentro de seus limites, os computadores nunca cometerão um erro devido à fadiga. O que os humanos vêem como “complicações” são, para um computador, simplesmente a demonstração de um teorema.

Existe estilo em tal perfeição? Bobby venceu muitas partidas complicadas e sem dúvida parecia deleitar-se com táticas, mas ele também ficava feliz ao simplificar para uma vitória técnica. Ele jogava com perfeição? Muitos de seus colegas achavam que sim, embora análises computacionais posteriores tenham demonstrado que mesmo Bobby às vezes não jogava perfeitamente. Mas perfeição e estilo estão nos olhos de quem vê e, em um sentido real, o jogo de Bobby transcendia o estilo. Na década de 1970, eu costumava viajar para a Big Apple para jogar em eventos e encontrar adversários para jogar Blitz. Inclusive visitei a famosa “Flea House” perto de Times Square antes de me decidir pelo Manhattan Chess Club como meu refúgio predileto para jogar Blitz. Quando estava na cidade, eu tentava me encontrar com Asa Hoffman, um conhecido mestre de Blitz que sabia muitas histórias sobre Bobby, e passávamos horas juntos enquanto ele me contava sobre como ludibriava Bobby, fazendo apostas que nem mesmo Bobby podia superar. “Ele me dava vantagem de cinco para um em dinheiro e também vantagem do empate. Sem vantagem de tempo. Nós dois jogávamos com cinco minutos cada um. Ele vencia nos placares, eu ganhava o dinheiro.” Assim Asa descreve suas sessões.


Em uma de minhas visitas, Asa me apresentou a Jackie Beers. Jackie usava barba e tinha uma aparência desleixada naquele dia. Contudo, ele foi apresentado como um confidente íntimo de Bobby. Sentamos para uma boa conversa e Jackie me contou que recentemente tinha recebido uma chamada: “Bobby me perguntou se eu podia emprestar-lhe 50 pratas”. Eu fiquei surpreso. “Eu disse que, se eu tivesse, certamente lhe mandaria, mas eu disse a verdade, que eu não tinha os 50 dólares”. Eu acreditei que Jackie estava dizendo a verdade quando disse que não tinha os 50 dólares, mas poderia mesmo ser verdade que Bobby era tão pobre que precisava pedir dinheiro emprestado a amigos que mal podiam atendê-lo neste modesto pedido de ajuda? Parecia totalmente incoerente. Como seria possível? Estávamos falando de um homem que podia ganhar milhares de dólares em um único dia jogando em torneios, participando de simultâneas ou mesmo dando uma palestra. Seria tão simples e, no entanto, Bobby preferia pedir dinheiro emprestado? Viver uma vida de miséria? Mas que diabos estava acontecendo? Eu fiquei totalmente confuso.

Durante uma de minhas visitas a Nova Iorque eu fiquei com uma família. O marido era um médico suíço, o “Dr. Rudy”. Ele se interessava muito por xadrez pois seus dois filhos jogavam. Ele fizera contato com Claudia e queria ajudar Bobby a sair de sua aposentadoria auto imposta. Ele agendou um encontro com Bobby e pagou 5 mil dólares adiantados pelo privilégio de conhecer e falar com ele. As conversas deveriam ser totalmente sigilosas e não haveria fotos. O Dr. Rudy embarcara na aventura e saiu com uma impressão extremamente positiva. Bobby estava pronto, disposto e até ansioso para jogar, mas insistia nas regras de Steinitz para jogar em matches. Infelizmente, ele não estava interessado em participar de torneios.

No decorrer dos anos, conheci numerosas pessoas que tinham feito o mesmo que o Dr. Rudy, pagando cinco mil dólares pelo privilégio de um encontro. A maioria desses encontros parecia ter ido muito bem e o pessoal saía confiante. Confiantes ou não, tudo deu em nada.

HAVIA ALGUMA ESPERANÇA?

Minha história predileta sobre “pagar pelo privilégio de conhecer Bobby” é a de Arnfried Pagel. O Sr. Pagel era um industrial no ramo de cimentos que se fixou na Holanda, perto de Beverwijk. Por seu grande interesse em xadrez, ele patrocinava um clube local, o Koningsclub. Pouco tempo depois, o Sr. Pagel decidiu que seu clube estava destinado a tornar-se o Clube Campeão de Xadrez da Holanda e, assim, saiu em busca de “mercenários”, Grandes Mestres que ele contrataria para jogar em seu esquadrão. Naquela época, levava tempo para promover um clube para o nível mais alto da liga, mas o Sr. Pagel estava ansioso para que seu time vencesse o Campeonato da Liga “antes do tempo”. Ele resolveu contornar o processo de qualificação usual e propôs um desafio direto a Volmac, o Campeão dos Clubes Holandeses. A equipe do Volmac aceitou o desafio, e fui contratado pelo Sr. Pagel, por indicação de Lev Alburt, para jogar para seu Koningsclub. O Sr. Pagel foi um anfitrião maravilhoso, e, para minha sorte, o resultado do match de dois dias dependia do resultado de minha segunda partida contra Raymond Keene. Se eu vencesse, o Koningsclub venceria o match de desafio, e foi exatamente isso o que aconteceu. O Sr. Pagel estava nas alturas e me convidou, assim como Victor Korchnoi, da equipe do Volmac, para jantar e jogar bridge. Naquela noite, o Sr. Pagel nos contou a seguinte história, que também resumi assim:
“Depois que comecei a patrocinar o Koningsclub, comecei a me dar conta de que seria um verdadeiro sonho para mim se Bobby Fischer jogasse ao menos uma partida pela equipe. Escrevi para Claudia e fiz a oferta de pagar 100 mil dólares a Bobby para  jogar uma única partida. Como estávamos nos níveis mais baixos na época, o adversário de Bobby seria um verdadeiro amador no xadrez escolhido de forma totalmente aleatória. Recebi uma resposta afirmativa de que Bobby estava disposto a conversar sobre a minha oferta, mas gostaria de me encontrar para tratar dos detalhes. Haveria uma “taxa de ingresso” para o público? A partida seria filmada? E assim por diante. Eu teria que pagar 50 mil dólares para me encontrar com Bobby para acertar os detalhes e voar para Pasadena. Eu concordei sem hesitar.
“Em meu primeiro encontro com Bobby tudo correu bem. Conversamos sobre muitos detalhes e chegamos a um acordo geral. Passei algumas horas com ele no primeiro dia e ele me elogiou, dizendo que desfrutara imensamente de minha companhia e me perguntou se poderíamos nos encontrar novamente no dia seguinte, para que ele tivesse tempo de pensar sobre nossa conversa e os principais pontos. É claro que eu concordei. Encontramo-nos de novo e parecíamos ter feito muito progresso. Isso continuou, mas eu tinha um sentimento muito desconfortável de que, apesar de ser, no meu entendimento, uma oferta muito generosa, de alguma forma Bobby estava procurando um motivo para dizer não. Se esse fosse o caso, minha viagem teria sido em vão e eu voltaria para a Holanda de mão vazias. E o pior é que eu não tinha absolutamente nenhuma prova de que eu sequer havia me encontrado com Bobby. Uma das condições de nosso encontro foi a de que não haveria câmeras nem fotos nem comentários com a imprensa sobre o nosso encontro. Eu tinha concordado. Mas o que fazer agora? Eu não queria voltar de mãos totalmente vazias.


“Por fim, decidi contratar um detetive particular. Sua tarefa seria tirar uma foto de Bobby comigo de longe, sem que ele o soubesse. Eu evidentemente manteria a foto em total sigilo e só a usaria como prova de que havia realmente me encontrado e discutido com ele a ideia de ele jogar uma par-tida para o clube.
“Durante os encontros, nossas conversas estavam ficando presas a detalhes. Bobby estava fazendo perguntas para as quais eu não tinha respostas e a possibilidade de chegar a um acordo estava diminuindo. Faríamos uma última tentativa e um terceiro encontro final, pois eu precisava voltar para a Holanda. Combinamos de nos encontrar em um determinado banco de um parque ao meio-dia. Eu estava lá pontualmente. Nada de Bobby. Passados quinze minutos, comecei a duvidar de que estava no lugar certo. Nos encontros anteriores, Bobby tinha sido sempre pontual. Assim, eu estava sentado em um banco de parque começando a ter dúvidas, quando ouvi um ‘psiu’ vindo das árvores atrás de mim. Isso continuou e eu olhei para as árvores e vi Bobby.
‘Bobby! O que você está fazendo nas árvores? Saia daí’, eu disse. ‘Não’, disse Bobby. ‘ Venha você aqui’. Daí eu fui até as árvores onde Bobby estava se escondendo e começamos a sussurrar em um tom conspiratório. ‘Por que estamos nos escondendo assim?’, perguntei. Bobby parecia muito agitado e olhava em volta. ‘Estou sendo seguido!’, ele disse. “É claro que eu imediatamente compreendi que Bobby tinha descoberto que estava sendo seguido pelo detetive particular que eu tinha contratado para tirar nossa foto. Eu não poderia dizer uma palavra sem me entregar. De algum modo, andamos pela fileira de árvores e despistamos nosso perseguidor. Posteriormente, eu consegui minhas fotos, mas Bobby nunca jogou pela minha equipe. Depois desta viagem, eu entendi que Bobby não jogaria xadrez outra vez.”

A história de Pagel, que ele me contou em maio de 1982, embora engraçada, trouxe uma grande decepção. Embora dez anos tivessem se passado desde que Bobby tinha jogado uma partida de xadrez em público, todos tínhamos esperança de que ele retorna-ria à arena do xadrez, mas a história de Pagel parecia por um fim a essa perspectiva para sempre. Afinal, o que poderia ser mais simples? Jogar uma única partida na Liga Holandesa contra um amador com rating de 1200 por uma remuneração de cem mil dólares. Nenhum título mundial em jogo; nenhum intermediário soviético com o qual tratar; nenhuma competição endossada pela FIDE; nenhum adiantamento nem intervalos prolongados ou postergações; apenas duas pessoas disputando uma partida vespertina em um clube local. Caramba, eles podiam até dividir uma rodada de cerveja durante a partida, que é uma prática comum. Se aquela oferta não foi aceita, que esperança poderia haver para um evento mundial mais sério? O relato de Pagel me fez afundar completamente.


Mais um detalhe da história da Pagel que vale a pena contar. Ele havia combinado com Claudia de se encontrar com Bobby por uma taxa de 50 mil dólares. Essa taxa incluía o acordo de que Bobby tornar-se-ia membro honorário do Koningsclub. Quando chegou a hora de Pagel pagar a Bobby seus honorários, ele apresentou cinco maços bem organizados com 10 mil cada um. Bobby, que gostou de Pagel, devolveu três dos maços, explicando que 20 mil eram suficientes. Bobby tinha uma personalidade complicada. Se ele gostasse de você, ele abriria mão de seus honorários e seria generoso; se não gostasse, independentemente da quantidade de dinheiro envolvida, ele simplesmente recusaria, inclusive, ofertas de um milhão ou mesmo de cinco milhões de dólares. Por que eu ainda nutria esperanças de um retorno de Bobby ao tabuleiro? Ao longo do tempo, minhas vagas esperanças tinham sido nutridas pelos Grandes Mestres Eugene Torre das Filipinas e Miguel Quinteros da Argentina. Ambos eram amigos íntimos de Bobby e, mais importante, seus confidentes. Em diversas ocasiões e lugares, eles pareceram ter se encontrado com Bobby por alguns dias de troça e diversão e, evidentemente, um tabuleiro de xadrez era inevitavelmente puxado. Bobby ainda estudava a Chess Informant e deliciava-se em desmontar a análise de Karpov (que Bobby chamava depreciativamente de “Kar-piche”) e do jovem Kasparov. Bobby começava: “Está bem, vejamos agora como o dito Campeão Mundial, o Sr. Kar-piche joga xadrez... Agora nesta posição, que Kar-piche diz equilibrada. É mesmo? O que será que ele faria diante deste lance? Talvez o dito Campeão Mundial quisesse abandonar a partida?” “Oh, e isso é bom. Aqui ele diz que está ganhando. Interessante. Depois deste lance, não podemos concordar em um empate?”

Eu jurei tanto a Eugene quanto a Miguel não contar nada a ninguém e regozijava-me por ter obtido sua confiança. Nunca revelei o que eles me mostraram, mesmo quando estava explodindo de vontade de fazê-lo. É claro que eu já me esqueci das muitas posições que eles mostraram, onde Bobby desmantelava a análise do “dito Campeão Mundial”, mas uma coisa estava clara: Bobby tinha encontrado defeitos na análise dele. Defeitos indiscutíveis. “Por que ele estava estudando as partidas de Anatoly Karpov tão atentamente se não estava determinado a arrasá-lo no tabuleiro?”, eu pensava. Depois, eu refletia sobre o relato de Pagel e me perdia. Quero dizer, ali estava um patrocinador perfeito, um industrial nascido na Alemanha, disposto a pagar milhares de dólares e a aceitar todos os termos e as condições que Bobby exigisse, uma pessoa que fez uma amizade com ele e, mesmo assim, não foi possível chegar a um acordo. E o que pensar de Jackie Beers e a necessidade de pedir 50 dólares emprestados? Era muitíssimo confuso!


Em outra ocasião, Miguel Quinteros contou-me uma história fantástica que era mais ou menos assim. Ele e Bobby combinaram de visitar Las Vegas e curtir um pequeno feriado. Bobby não gostou da ideia de se hospedar em um dos grandes cassinos e preferiu ficar em um hotel fora do circuito de cassinos. Eles dividiram um quarto duplo e saíram para jogar nas máquinas caça-níqueis, comer num buffet e assistir a algum show. Miguel explicou que tinha várias malas Samsonite grandes, onde levava seus ternos caros feitos sob medida, enquanto Bobby tinha uma mala leve e uma pequena bolsa, semelhante a uma pasta executiva, que ele mantinha chaveada e escondida debaixo de sua cama. Essa pasta especial continha as valiosas revistas em quadrinhos mexicanas de Bobby, que ele adorava, além de alguns suplementos vitamínicos. Certa noite, quando voltaram ao quarto, perceberam que haviam sido vítimas de um assalto. Os ladrões não haviam levado os ternos caros de Miguel, e a única coisa que estava faltando era a pequena valise chaveada de Bobby, escondida debaixo da cama. Bobby choramingou: “O cara rouba minhas revistas e não toca nos teus ternos? Qual é a dele?” Miguel ri disso há anos. Uma história final de Miguel Quinteros. Um de seus amigos mais queridos e próximos é seu conterrâneo Jorge Rubinetti. Eles participaram de um torneio round robin em Buenos Aires, em 1970, com Bobby. A partida estava marcada para a tarde e, perto do meio-dia, Miguel ouviu alguém batendo na porta de seu quarto no hotel. Era Jorge, seu amigo de infância. Em algumas horas, ele teria que encarar o grande Bobby Fischer. “Por favor”, disse Jorge, “você precisa me ajudar a me preparar! Hoje eu jogo de Pretas contra Bobby e você precisa me dizer o que preciso fazer.” E, então, o que o querido e íntimo amigo Miguel aconselhou a seu maior amigo, que era como um irmão, em seu desesperado momento de necessidade? Miguel sorriu, meneou a cabeça e disse: “Jorge, deixe-me explicar. Este cara vai te arrasar. Ele estudou a vida inteira para derrotar patos como nós. Você não tem chance. Não há nada que eu possa te aconselhar para impedir o inevitável. Por favor, não vamos perder tempo e vamos ter um belo almoço juntos. Depois você pode me mostrar como perdeu.” Nós todos tínhamos sido informados de que Bobby tinha uma grande capacidade para trabalhar duro no xadrez, que ele estudava até tarde da noite e passava a maior parte de suas horas de vigília lendo livros e revistas de xadrez. A história a seguir foi contada por outras pessoas, mas eu posso tranquilamente confirmar sua autenticidade. Ela me foi contada por Allen Kaufman. Allen era há muito o diretor executivo da American Chess Foundation (ACF), que hoje é a Chess-in-Schools Foundation. Nos velhos tempos, a ACF começou como uma fundação para apoiar os esforços de Samuel Reshevsky em sua luta pelo Campeonato Mundial. Vou resumir a história de Allen: “Eu conhecia Bobby muito bem e o via sempre pela cidade de Nova Iorque, em clubes e em torneios. Nós nos dávamos bem. Na época em que ele estava se preparando para seu confronto com Spassky, ele andava carregando seu famoso “livro vermelho”. Este era a edição da série alemã (Weltgeschichte des Schachs Volume 27) que continha as partidas de Spassky (mais de 350 partidas). Era o tipo de brincadeira que Bobby adorava fazer com as pessoas, inclusive comigo. Ele nos alcançava o livro e dizia: ‘Escolha uma partida’. Eu abria o livro e escolhia uma. ‘Diga-me o número da partida, o nome do adversário e onde a partida foi disputada’. E eu dizia. Bobby então reconstituía a partida e os movimentos exatos. Você podia literalmente pôr o dedo sobre a página, acompanhar os lances nos diagramas e Bobby lhe dizia quando ela iria terminar. Era realmente a coisa mais incrível. Não esqueça que os jogadores às vezes repetiam um ou dois lances para ganhar tempo no relógio, e Bobby acertava o placar. Só posso explicar isso como uma memória fotográfica, pois Bobby tinha memorizado o livro inteiro.”
Pessoalmente, isso me pareceu uma verdadeira proeza. Eu mal consigo me lembrar de minhas próprias partidas, muito menos memorizá-las lance por lance. Fazer isso com as de outro jogador? Fala sério. De jeito nenhum!

A VISÃO DE MUNDO DE BOBBY

Bobby havia enviado a Victor Korchnoi uma série de livros que Victor me emprestou e que eu li integralmente. Esses presentes de Bobby incluíam The Elders of Zion, The Protocols of  Zion e cinco outros títulos, todos falando soturnamente sobre os Illuminati. Todos tinham a mesma mensagem básica: o mundo estava sendo vítima de uma conspiração universal de banqueiros, muitos dos quais judeus. Esses livros eram mal escritos, com numerosas frases grafadas com letras maiúsculas para enfatizar as principais ideias e coisas do tipo. Os livros professavam que uma Conspiração Mundial de Bancos (judia) estava determinada a instituir um governo totalitário no mundo que nos escravizaria a todos (através de dívidas).

Os livros enredavam várias instituições, incluindo os Rothschild, o Banco da Inglaterra, o Federal Reserve (privado), a fundação da Receita Federal, as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Trilateral, o Grupo Bilderberg, a sociedade secreta Skull and Crossbones de Yale, os maçons e assim por diante.

Os fatos históricos eram descritos de modo a torná-los necessários para que as metas dos Illuminati fossem alcançadas. Todo grupo internacional era visto com desconfiança, e todos eram guiados pelo desejo de nos converter em escravos da dívida e assim controlar o mundo e toda a humanidade. No extremo mais profundo da conspiração, os líderes desse complô haviam criado uma máquina do tempo que lhes permitia se-rem transportados para momentos cruciais na história para mudar o desfecho. Era uma descoberta muito deprimente. Havia muitas passagens que Bobby havia obsequiosamente sublinhado para que Victor pudesse ver a verdade. Ai meu Deus. Depois de ler esses livros durante várias semanas, duas coisas me vieram à cabeça imediatamente. Primeiro, e mais importante, como alguém poderia levar esses livros a sério? Segundo, como eu podia me unir aos Illuminati? Afinal, os livros pintavam um quadro bastante sombrio da inevitabilidade do êxito do complô. Se não podemos derrotá-los, podemos nos unir a eles. Ser o zelador, digamos, da América do Norte, não parecia ser uma batida ruim (bad beat),* já que de qualquer maneira estávamos todos condenados. Na época, atribui a culpa pelas concepções políticas, econômicas e de mundo de Bobby a seu tipo particular de credo cristão fundamentalista – um sistema de crenças da proximidade do dia do juízo final que aguardava a vinda dos cavaleiros do apocalipse, como profetizado pelo Novo Testamento, para pisotearem todos nós. Esse credo, casualmente, é muito favorável a Israel e à expansão sionista. Ficou claro que, depois que rompeu com sua Igreja, Bobby inverteu suas concepções sobre Israel, assim como sobre o povo judeu. Por suas posteriores transmissões de rádio das Filipinas publicadas na internet, descobrimos que as visões de Bobby sobre a “conspiração judia” haviam se fortalecido e ele falava com amargura sobre elas, sobre seu país e sobre o povo dos Estados Unidos. Era fisicamente doloroso ouvi-las. Em algum ponto na metade da década de 1980, deparei-me com um panfleto a respeito do qual já havia lido. Ele se chamava I Was Tortured in the Pasadena Jailhouse!, da autoria de Bobby Fischer, o Campeão Mundial de Xadrez. Se alguma vez li um grito de ajuda, ali estava ele. O copyright era de 1982 e o panfleto foi publicado por Bobby Fischer. O preço de capa era um dólar. Os parágrafos são precedidos por títulos em negrito. Os títulos contam a história completa do que aconteceu:
Assalto a banco... Sério... Preso... Brutalmente algemado... Falsa prisão... Humilhado... Sufocado... Descrição do assaltante... Completamente nu... Nenhum telefonema... Cela do horror... Isolamento e tortura... Hospital psiquiátrico... Passando fome e frio... Colchão interno... Refeição e quentinha... Sem água... Tira doente... Indecência da polícia... Ameaças... Mesmas perguntas e respostas... Crimes da polícia... Telefonema... Impressões digitais... Assinado sem ler... Nenhuma acusação por escrito... (Nenhum) Dinheiro de volta... Simulação... Perguntas não feitas... Fatos verídicos...

O panfleto foi assinado com um fac-símile por “Robert D. James”. Abaixo da assinatura havia uma explicação: “Robert D. James (profissionalmente conhecido como Robert J. Fischer ou Bobby Fischer, o Campeão Mundial de Xadrez)”.


Quem lesse esse panfleto não poderia deixar de querer se envolver na vida de Bobby e salvá-lo de si mesmo e de seu ambiente. Basicamente o que aconteceu é que ele estava caminhando em um belo bairro de Pasadena tarde da noite. Um assalto a banco havia ocorrido mais cedo naquele dia. A polícia estava atenta para pessoas que parecessem deslocadas. Quando a polícia parou para interrogá-lo, Bobby assumiu um ar desafiador e citou os direitos constitucionais na Quinta Emenda para não ser incriminado. Ele foi detido. Resistiu, recusando-se a cooperar, e as coisas foram piorando. Onde estavam os amigos de Bobby? Por que eles não estavam tentando ajudá-lo? Não seria possível convencê-lo a fazer terapia? O panfleto era, em minha opinião, a gota que faltava. Eu não conseguia imaginar Bobby saindo de seu isolamento auto imposto. Mais do que tudo, esse panfleto expõe o mito de que Bobby derrotara o império soviético sem ajuda. Sem ajuda, quando confrontado pela polícia em Pasadena, ele fez um tolo de si mesmo e acabou preso. Se ele tivesse dito simplesmente: “Eu sou Bobby Fischer. O presidente Nixon declarou-me um herói nacional. Eu derrotei os russos no Campeonato Mundial de Xadrez de 1972 e conquistei o título para os Estados Unidos”, os policiais provavelmente teriam parado imediatamente, surpresos, pediriam um autógrafo e ofereceriam uma carona até sua casa. Bobby sem dúvida apresentava muitos comportamentos autodestrutivos e às vezes era seu pior inimigo.

Minha próxima história sobre Bobby foi contada por Bessel Kok. Como pano de fundo para esta história, vamos começar em Dubai durante a Olimpíada de Xadrez de 1986. O então Campeão Mundial, Garry Kasparov, e Bessel Kok, presidente da Corporação SWIFT, com sede em Bruxelas, decidiram fundar a Grandmasters Association (GMA), ou Associação de Grandes Mestres. Fui convidado para ser um dos diretores fundadores – tarefa que aceitei com entusiasmo. Em fevereiro de 1987, tivemos nossa primeira reunião de diretores, em Bruxelas, e a GMA foi fundada. Os primeiros anos foram de considerável sucesso e a GMA criou sua própria série de eventos da “Copa do mundo”. Muitos se referem ao período de 1987 a 1991 como a época de “ouro” para o xadrez. Bessel era presidente da GMA e meteu na cabeça que gostaria muito que Bobby se associasse à GMA. (As taxas eram de 20 dólares por ano.) Ele convidou Bobby para visitar Bruxelas e, a seguir, está minha sinopse da história de Bessel:


“Convidei Bobby para vir a Bruxelas, onde nos encontraríamos e conversaríamos sobre a possibilidade de ele se associar à GMA, além de falarmos a respeito dos projetos de xadrez nos quais ele estivesse interessado. Bobby veio e ficou em minha casa por volta de uma semana. Ele estava muito preocupado com a possibilidade de ser reconhecido e de a imprensa fazer alarde. Por isso, mais ou menos por medo de ser descoberto, ele basicamente ficava em casa, o que me deixou maluco, pois eu queria sair e mostrar-lhe a cidade. Quando falávamos sobre a GMA e possíveis projetos de xadrez, as conversas não davam em nada e nada iria acontecer.

“De repente e surpreendentemente, bem no fim de sua estadia de uma semana, Bobby resolveu que queria ir a um bar, o que ele chamava de um “bar de garotas”. Por sorte, eu conhecia um. Fomos até lá e pedimos uma garrafa de champanhe cara. Sem problemas, eu estava feliz de estar fora de casa. Logo Bobby estava conversando com uma moça e eu com outra. Nós estávamos de costas um para o outro, mas eu prestava atenção na conversa que estava acontecendo atrás de mim.

“Era o tipo de conversa trivial que se tem nestas ocasiões, até que a mulher fez uma pergunta de parar o coração: ‘Então, com o que você trabalha?’ Tenho certeza de que o champanhe teve um efeito suavizante, mas eu senti Bobby empertigar-se e endireitar as costas.

‘Eu sou um Grande Mestre Internacional de Xadrez!’, Bobby disse sem rodeios. Fiquei surpreso com sua admissão, mas a mulher respondeu com entusiasmo. ‘É mesmo? Eu também jogo xadrez! Eu sei o nome de muitos Grandes Mestres. Qual é o seu?’ “Neste momento, eu tive que interromper minha conversa para me virar e ouvir o que estava acontecendo atrás de mim. Tinha se tornado muito interessante. Bobby parecia genuinamente encantado com o fato de que a mulher sabia alguma coisa de xadrez.

‘Bom, meu nome é Robert James Fischer. Eu sou o Campeão Mundial de Xadrez!,’ exclamou Bobby, com um tom resoluto. ‘Ora vamos’, disse a mulher. ‘Pare de fazer piadas. Você não é Bobby Fischer! Ontem tivemos Dali, e agora é o Fischer’, disse ela fazendo beicinho. ‘Mas olha, pague-me outra taça de champanhe e eu te chamarei de Bobby pelo resto da noite.’ “Bobby estava evidentemente chocado porque a mulher não acreditara nele, enquanto eu ria sem parar. Bobby começou a vasculhar sua carteira e os bolsos do casaco tentando encontrar algum documento que provasse sua identidade. Ele passara anos tentando esconder sua identidade e, no momento em que desesperadamente queria provar quem era, não podia. Mesmo quando tentei socorrê-lo dizendo: ‘Sim, este é real-mente Bobby Fischer’, recebemos ambos um olhar incrédulo. Foi uma das experiências mais engraçadas de minha vida. Fischer não podia provar quem ele era”. Bessel, que tem um temperamento tranquilo e ri com frequência, sempre conta essa história com risadas entusiasmadas. Por sua forma de contar, a gente imagina o que ele deve ter rido. A história de Bessel sempre me faz rir sempre que ele ou eu a reconto. É a história pela qual eu gostaria de me lembrar de Bobby, em que ele tem orgulho de ser quem é e quer provar sua verdadeira identidade, em vez de se esconder por trás da máscara que fez para si mesmo. Para mim, Bobby é um enigma; uma pessoa mítica. Um herói que se tornou uma pessoa amarga que desdenhava do mundo. Um homem que lutava contra demônios reais e imaginários. Um homem que investia contra moinhos de vento. Mas o pior, muito pior, ele foi um homem de extraordinário potencial que não se realizou. Bobby poderia ter sido o Mohammed Ali do mundo do xadrez. Poderia sozinho ter levantado o esporte e o colocado na cena mundial. Ele recusou esse papel heróico e preferiu fugir para seu mundo particular isolado. A perda para o mundo do xadrez foi simplesmente incomensurável.

O RETORNO DE BOBBY

Bobby era, evidentemente, um deus do xadrez. Se tivesse continuado a jogar, ninguém sabe o que teria alcançado, que disputas e torneios teria vencido, se teria alcançado um inexpugnável recorde de matches e torneios e se teria a supremacia por uma década ou mais.

Mas, em 1992, Bobby chocou o mundo. Ele saiu da aposentadoria, voltando a confrontar Boris Spassky. Foi um match sobre o qual Garry Kasparov, entre muitos outros, falou mal, declarando que as partidas eram de má qualidade e exemplos de “xadrez de velhos”. Foi dito que Bobby era de outra época e nunca deveria ter voltado a jogar, pois seu jogo prejudicou sua condição legendária. Surpreendentemente, essa foi a linha adotada pela Chess Life, a publicação oficial da USCF. Os comentaristas pareciam especialmente ávidos por criticar os lances escolhidos. Eu visitei o match, encontrei-me com Bobby por um dia e escrevi um livro sobre isso, No Regrets (Sem Arrependimentos).


Vamos colocar esse confronto de 1992 em seu devido contexto, certo? Bobby não havia movido um peão em público por 20 anos. Dizer que ele estava “enferrujado” seria dizer pouco. Seria como se um ciclista como Lance Armstrong se ausentasse por duas décadas e depois anunciasse que iria competir no Tour de France. Impossível. Então, o que eu poderia esperar? Eu esperava que vencesse, mas que o faria de uma maneira desleixada. Em vez disso, eu desafio a todos a reconstituir a Primeira Partida daquele confronto. Foi incrível! Não apenas uma pérola, foi uma partida excepcional. Todos os lances de Bobby estavam corretos. Perfeitos! Eu estava estupefato. Depois, vejamos a Segunda Partida. Mais uma vez, em cerca de 60 lances, Bobby jogou xadrez perfeito. Simplesmente perfeito. Ele construiu uma posição vitoriosa, mas na sexta hora de jogo concedeu a Boris uma pequena escotilha de fuga, que Boris descobriu e evitou a derrota. Incrível. Bobby voltou ao xadrez e jogou seus primeiros 100 lances de maneira perfeita. Vou repetir isso: de maneira perfeita. Quem sabe o que ele poderia ter alcançado se estivesse ativo por vinte anos, mas aqueles 100 primeiros lances em 1992 me convenceram de que ele tinha potencial para ser o melhor de todos os tempos.

Uma vez conversei com meu pai sobre Bobby no começo dos anos oitenta. Eu tinha falado sobre minha admiração por Bobby e meu pai demonstrou uma indiferença quase veemente. Surpreso, perguntei por que ele tinha uma opinião tão forte e negativa sobre ele. Parafraseando: “Bobby venceu o Campeonato Mundial de Xadrez. Ele lutou e venceu uma vez. Uma vez. Eu já fui pára-quedista. Qualquer idiota é capaz de se jogar de um avião. Você passa a ser respeitado quando o faz pela segunda vez, pois você conhece seus medos e o que precisa enfrentar.” Palavras fortes e reveladoras, sem dúvida.

ENCONTRANDO BOBBY FISCHER

Fui à Iugoslávia para uma parte do confronto de Fischer e Spassky de 1992 e me encontrei com Bobby e passei um dia com ele. Aquelas poucas horas juntos foram, de meu ponto de vista, uma experiência muito agradável. Eu estava eufórico por conhecê-lo e fico grato a ele pelo tempo que passamos juntos: um dia inteiro. Eu o guardarei com carinho. Bobby agradeceu-me pessoalmente por ter viajado até Sveti Stefan para o confronto, e lamentava que eu fosse o único Grande Mestre americano presente. Ele achava que seu retorno não tinha recebido a aclamação que merecia. Eu conto isso como pano de fundo para o retorno que recebi, por fofocas, de que Bobby parecia estar furioso comigo porque eu tinha escrito No Regrets e assim tinha me beneficiado com o retorno dele ao xadrez. Eu me reuni às legiões de outras pessoas que lucraram com ele. Embora No Regrets não tenha me trazido nem fama nem fortuna, fiquei orgulhoso pelo livro e recebi um elogio fantástico de Boris Spassky, que adquiriu 47 exemplares. Este era claramente o caso de “maldito se fizer e maldito se não fizer”. Entristece-me pensar que Bobby tinha má opinião sobre mim antes de falecer. Seria tolice escrever novamente sobre o dia que passei com Bobby aqui, pois eu contei isso em detalhes em No Regrets. Em retrospectiva, eu diria que duas coisas se destacam em nosso encontro. A primeira foi como Bobby me elogiou por Cinco Coroas (Five Crowns). Aquele livro fazia uma análise profunda de todos os 24 jogos do confronto entre Kasparov e Karpov em 1990. Em mais de duzentas páginas de análise, Bobby encontrou dois erros. Erros que eu também tinha descoberto depois da publicação. Ele conhecia os jogos e onde eu havia me perdido. Eu fiquei impressionado.

A segunda coisa foi que, antes de me encontrar com ele em sua suíte, tanto Eugene Torre quanto Svetozar Gligoric me disseram que Bobby estava enfezado comigo. Eu tinha escrito uma coisa na Inside Chess de que ele não tinha gostado. Eu me referi a ele como “o fantasma de Pasadena”. Bobby se queixou, dizendo: “Eu não sou um fantasma, eu sou um homem”. Assim, decidi lhe pedir desculpas e receber o perdão dele. Quando fomos nos cumprimentar, segurei a mão dele enquanto pedia desculpas e não a soltei antes que ele dissesse: “Vamos esquecer isso tudo.”

Com isso fora do caminho, Bobby estava animado, falava rápido e ria facilmente. Compartilhávamos histórias de Bruce Lee, o artista marcial que ambos admirávamos. Para ler o relato completo de meu encontro com Bobby, o leitor deve ler No Regrets. Depois de 1992, nunca mais me encontrei nem falei nem mantive correspondência com Bobby. Um livro que vou sempre valorizar, mesmo com a capa despedaçada, é My 60 Memorable Games de Bobby. Existem histórias para todas as partidas disputadas, e uma delas tocou meu senso de humor.

Arthur Bisguier relata o seguinte incidente no Aberto do Estado de Nova Iorque, realizado em Poughkeepsie, em agosto/setembro de 1963. A passagem a seguir foi extraída de The Art of Bisguier, Selected Games 1961-2003 (Milford, 2008): “Jogando contra Bobby no Aberto do Estado de Nova Iorque naquele ano, percebi que ele estava demorando demais para jogar. Daí vi que ele tinha pegado no sono. Em alguns minutos a seta em seu relógio iria cair e ele perderia por tempo. Não é assim que gosto de ganhar partidas, torneios ou títulos. Por isso cometi o que alguns chamaram de maior erro do torneio. Eu acordei o Fischer. Bobby bocejou, deu seu lance, bateu no relógio e me derrotou. Essa acabou sendo a Partida 45 em My 60 Memorable Games. Depois eu soube que Fischer tinha ficado acordado até tarde na noite anterior jogando Blitz para ganhar dinheiro.”

Eu acho que nunca tive um adversário que tenha adormecido durante uma partida, mas alguns deles certamente chegaram perto disso. Às vezes fico preocupado que isso possa ser um efeito dos aspectos posicionais de meu estilo. Fico pensando em como eu teria agido. Acredito firmemente que devo lembrar meus adversários de apertar o relógio quando eles esqueceram de fazê-lo, além de lembrá-los que seu tempo se esgotou (caso eu tenha certeza disso). Mas, se Bobby adormecesse, eu poderia achar que o coitado precisava de uma hora de descanso...


No fechamento deste capítulo, eu coloco Robert James Fischer como o terceiro maior jogador de todos os tempos. Ele foi um gigante que se dedicou ao xadrez e nos deixou um legado de partidas de tirar o fôlego. Receio que ele será lembrado mais por ter abandonado o xadrez prematuramente do que pelo que contribuiu para o esporte. No xadrez, recordamos nossas derrotas muito mais do que nossas vitórias. A ausência de Bobby foi a maior perda que o xadrez sofreu desde Paul Morphy. A estrada para a recuperação ainda está em andamento. Existe um vídeo islandês sobre Bobby Fischer que eu achei muito bom: faça uma busca na internet por “Documentary Fischer VS Spassky”.