quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

MEQUINHO - HENRIQUE MECKING

Top 3 do xadrez nos anos 70, Mequinho reza para voltar ao topo
Folha de São Paulo: CAROLINA ARAÚJO

A rotina de Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, 59, enxadrista que chegou a ser o terceiro melhor do mundo nos anos 70, está longe da agitação da época em que desfilava em carro aberto no Rio e era convidado para o programa do Chacrinha.


Hoje, o que move o jogador todos os dias são duas refeições, seis remédios homeopáticos, uma missa e horas de oração e estudo de xadrez.

Mas, entre os tempos de herói nacional e a vida tranquila atual, o desejo de voltar a estar no topo do ranking mundial liga as duas épocas.


"Se eu chegasse de novo a ser um dos melhores, o país inteiro teria de me apoiar."

Mequinho vive hoje em Taubaté (140 km de São Paulo), em um apartamento de dois quartos e poucos móveis comprado no início do ano.

Mora com Tiago Pereira Rodrigues, 23, 203º lugar no ranking nacional, a quem apresenta como seu treinador e assessor nos treinos.

Sai pouco. Seu compromisso diário mais rígido é ir à missa --frequenta três paróquias diferentes--, hábito que segue mesmo quando disputa algum campeonato fora da cidade. Neste ano, jogou poucos. Lembra-se de um em Campinas, um na Espanha e outro em Santo André.

Mequinho se recusa a viajar para vários países, como a Rússia, um dos principais polos do xadrez mundial e de onde vieram alguns de seus maiores rivais nos anos 70.

"Há muitos lugares a que não quero ir. Só jogo em países em que me sinta bem pela situação política e religiosa, em que os cristãos não sejam perseguidos, onde haja liberdade e democracia."

Na próxima semana, estará em Mogi das Cruzes, nos Jogos Abertos do Interior, disputa entre cidades --defende São Bernardo do Campo. Não revela quanto ganha para isso. Os melhores jogadores brasileiros costumam receber cerca de R$ 2.000 mensais.

Aumenta sua renda com palestras e simultâneas, eventos em que enfrenta vários rivais ao mesmo tempo.

Além do apartamento onde vive, tem um carro. Dinheiro, afirma, não é um problema.

DOENÇA

Mequinho descobriu a religião na época em que se afastou do esporte que o consagrou. O motivo foi a miastenia grave, doença que afeta os músculos e que foi detectada no auge da carreira.

Em 1978, o gaúcho era o terceiro colocado do ranking da Fide (Federação Internacional de Xadrez), atrás dos russos Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi (que, posteriormente, naturalizou-se suíço).

Mas a miastenia o fez abandonar os tabuleiros. No pico da doença, quando não tinha forças para mastigar ou escovar os dentes, Mequinho entrou para o movimento católico Renovação Carismática.

Nos anos seguintes, formou-se em teologia e filosofia, tentou ser padre ("Mas vi que não era esse o caminho"). E afirma que um milagre o levou à cura da doença.

Hoje, diz estar "quase bom". Reclama de cansaço, especialmente quando joga xadrez --voltou definitivamente ao esporte em 2000.

Se está disputando um torneio, acrescenta mais um remédio homeopático a seu arsenal diário. Já a alimentação é sempre a mesma: duas vezes por dia, só alimentos naturais e sem tempero.

Mequinho diz que só vai se curar totalmente "quando Jesus quiser". Mesmo assim, afirma estar "muito vivo". "Vou fazer 60 anos agora [em janeiro]. Muita gente não me dá essa idade e diz que eu tenho dez, 15 anos a menos."

As orações, segundo o enxadrista, não curaram apenas a miastenia. Enumera outros episódios que ocorreram após "rezar muito": a redução do grau da miopia, o conserto da sua geladeira ou a cura de uma fratura no dedo.

"Há jogos em que estou para perder, e Jesus e Nossa Senhora me salvam. Claro, nem sempre escapo, senão já seria o campeão do mundo."

O temor da derrota influencia até sua relação com os fãs. Não aceita dar autógrafos em planilhas de xadrez, onde são anotados os lances das partidas. "Tenho medo de que alguém bote lá que eu perdi."

Com a cura total da doença, espera voltar a estar entre os melhores do mundo. "Se eu disser que Jesus me curou e for o último em um torneio, não vão acreditar em mim."

Mas o topo do ranking mundial está distante. Mequinho é o 253º da lista, com 2.590 pontos, e o quarto colocado entre os brasileiros. Nos últimos dois anos, afirma ter subido 48 pontos no ranking. Faltam hoje 236 pontos para igualar o número um, o norueguês Magnus Carlsen, 20.

O brasileiro, porém, não usa a matemática e a lógica, mas a religião, para explicar como alcançará a façanha. Com relatos de aparições de Nossa Senhora em Medjugorje, na Bósnia, passagens bíblicas e a proximidade do "final dos tempos", diz como será a nova ascensão no xadrez.

POLÍTICA

Do tempo em que era o terceiro melhor do planeta, feito nunca repetido no país, restaram lembranças do regime militar, que transformou Mequinho em herói nacional.
O enxadrista elogia o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici (1969 e 1974), líder dos anos de chumbo da ditadura.

"O presidente Médici me ajudou muito. Era um homem inteligente, gostava de esporte. Em 1970, pedi a ele um cargo para deixar a faculdade em Porto Alegre, só jogar xadrez e tentar ser campeão do mundo. Ele disse: 'Sim, vou resolver seu problema'."

Mequinho foi nomeado no Ministério da Educação e se mudou em 1971 para o Rio.
No ano seguinte, tornou-se o primeiro grande mestre do país, em 1972, aos 19 anos, feito que o levou a desfilar pela cidade em carro de bombeiros com a bateria da Mangueira e a torcida do Flamengo.

Ainda ganhou dois importantes torneios da época, os Interzonais de Petrópolis (1973) e Manila (1976). Suas partidas saiam nos jornais.


Mas Mequinho, testemunha da influência que a Guerra Fria tinha sobre a elite do xadrez, também reclama das pressões daquela época.

"Os melhores do mundo sofrem uma perseguição muito grande. Veja o quanto o [Bobby] Fischer sofreu", diz, citando o americano, morto em 2008, que encerrou a hegemonia soviética ao virar campeão mundial em 1972.

Após virar símbolo dos EUA na Guerra Fria, Fischer abandonou o xadrez em 1975. Como Mequinho, tentou voltar décadas depois. Sem o mesmo sucesso de antes.


Fonte: Jornal Folha de São Paulo http://www1.folha.uol.com.br/esporte/1001991-top-3-do-xadrez-nos-anos-70-mequinho-reza-para-voltar-ao-topo.shtml



13 de janeiro de 1972
Mequinho, o primeiro grande mestre do Brasil
A conquista do enxadrista Mequinho
Jornal do Brasil, Sexta-feira: 14 de janeiro de 1972


O brasileiro Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, tornou-se aos 19 anos o mais jovem grande mestre internacional de xadrez ao empatar com o romemo Victor Cocaltea no 15º movimento em partida válida pela 14ª rodada do torneio de Hastings, na Inglaterra. Depois de conquistar o título, o mestre desabafou: "Agora posso dormir tranquilo. Fiquei várias noites em claro, passando e repassando cada movimento no tabuleiro". De volta ao Brasil, Mequinho foi recebido no aeroporto pela bateria da Mangueira.


O maior enxadrista brasileiro aprendeu a movimentar as peças aos 5 anos, orientado pela mãe. Aos 12 anos, já havia ganho o campeonato gaúcho e, aos 13 anos, o brasileiro. Aos 15 anos, ao conquistar o Sul-Americano tornou-se o mais jovem jogador a vencer um campeonato continental, e em seguida sagrou-se o mais jovem Mestre Internacional da história do xadrez. O desempenho de Mequinho na juventude só é comparável a outros gênios, como o norte-americano Bobby Fischer e o russo Garry Kasparov. O brasileiro aos 18 anos chegou a empatar uma partida com Fisher, já naquela época considerado o mais forte enxadrista de todos os tempos.

Em 1978, atingiu a posição de terceiro melhor jogador de xadrez do planeta, com 2.635 pontos, na tabela da Federação Internacional de Xadrez, atrás apenas de Viktor Korchnoi, vice-campeão mundial, e de Anatoly Karpov, campeão mundial. Mas naquele mesmo ano Mequinho foi bruscamente obrigado a interromper sua carreira. O jogador foi acometido de miastenia, doença que ataca e debilita o sistema nervoso e os músculos. Desenganado pelos médicos, que disseram que ele poderia morrer a qualquer momento, ingressou na Renovação Carismática Católica e diz que ficou curado. Mequinho retornou às disputas internacionais em 2000, mas tem dedicado a maior parte de seu tempo à religião.

Fonte: http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=25337



Mequinho pronto para virar o jogo
Na base da fé e da homeopatia, grande mestre se recupera de doença e espera voltar a competir em alto nível
Ana Paula Garrido - O Estadao de S.Paulo

A doença de nome difícil - miastenia -, e tratamento mais difícil ainda, quase deu um xeque-mate em Henrique Mecking, o Mequinho. Foram 17 anos longe do mundo de torres, peões, rainhas e reis - de 1979 a 1991 e 1995 a 2000. Durante esses intervalos, arriscou algumas disputas, mas admite que não foi nada bem. Mas, agora, o discurso é diferente. Mequinho vem retomando, ainda devagar, a rotina de jogos. No ano passado, o melhor enxadrista que o Brasil já teve participou de três torneios e empatou por 2 a 2 com o melhor da América do Sul.

Para ele, a recuperação só foi possível graças a remédios homeopáticos, alimentação natural e oração, muita oração - mesma tática usada em jogos difíceis. "Já estive completamente perdido em quatro ou cinco disputas, mas, começo a rezar em voz baixa, Jesus fica com pena de mim e me salva", diz.

A ligação íntima com a religião - formou-se em teologia e participa do movimento Renovação Carismática, da Igreja Católica -, o faz assegurar que sua cura está próxima. "Estou quase bom. Há dez anos jogava muito pior do que agora", conta.

Mequinho aposta em cura ainda para este ano. "Na Bíblia diz: "Para Deus um dia é como mil anos e mil anos como um dia". Vou ser curado rapidamente."

O desejo é ser o mesmo de 1978, quando se sagrou o 3º melhor do mundo no ranking da Federação Internacional de Xadrez (FIDE). "Pretendo voltar a ser um dos melhores, até o primeiro", torce. A doença que atrapalha a ligação dos nervos com os músculos o faz perder força rapidamente após atividades física ou mental. "Os erros são por causa do cansaço. Além disso, demoro mais para me recuperar dos torneios."

A necessidade de intervalos mais longos impede a participação de Mequinho em campeonatos seguidos, que contam pontos para o "rating" internacional (ranking dos melhores do mundo). Cada partida vencida é somada na pontuação. Quando disputada com adversário de nível superior, até empate rende pontos. Em 1978, ele atingiu a marca de 2.635. Hoje, está longe dos primeiros lugares.


"Fui prejudicado porque houve uma grande inflação de "rating". A Federação deu pontos para mulheres e surgiram novos jogadores", reclama. Mesmo assim, Mequinho se orgulha da conquista, que o coloca na classe dos grandes mestres - acima de 2.500 pontos - para sempre. E afirma que, mesmo na época aguda da doença, nunca esteve abaixo disso.

Enquanto não volta a ter 100% de condições, Mequinho controla a ansiedade com a certeza de que o pior já passou. Quase morreu durante uma crise da doença em 1979. Na época, não conseguia mastigar e nem sair de casa, tamanha a fraqueza. "A empregada me dava comida na boca e um amigo escovava meus dentes", relata.

Como grande mestre de xadrez, Mequinho soube lidar com o tempo prolongado para se livrar da miastenia. Já são 31 anos, entre tratamento nos Estados Unidos e remédios diários, além de visitas às cidades milagrosas e participação em grupos de oração.

No entanto, a paciência não é a mesma para partidas mais longas. Prefere jogos mais rápidos realizados em sites como o Clube de Xadrez Virtual (ICC). "Fui dez vezes o numero um no ICC. Ali se reúnem os melhores do mundo e tem mais de 200 mil jogadores", orgulha-se.

A preferência por lances mais breves também é clara no livro em que fala sobre sua vida. Os 14 capítulos têm em média uma página e meia cada um.

Mesmo em conversas sobre xadrez, Mequinho sempre acha espaço para discursar sobre santos e teorias católicas. Tudo acompanhado de datas e nomes detalhados. Porém, a memória ainda não armazenou a senha para entrar no ICC, anotada num papel dobrado.


RECUPERAÇÃO

Para auxiliá-lo na fase de recuperação, Mequinho chamou o enxadrista Tiago Pereira Rodrigues. Enquanto o grande mestre fica na sala lendo sobre xadrez ou analisando partidas, o jovem Tiago, de 21 anos, sentado a frente de três computadores, reúne informações sobre os principais mestres e jogadas. Para o garoto, vale o aprendizado.

Acostumados a passar horas em frente a um tabuleiro, os dois só se enfrentaram uma vez, numa partida simultânea, quando Mequinho jogou com vários ao mesmo tempo. Tiago perdeu. Os dois se enfrentam mais no caratê, esporte que Mequinho pratica, assim como a corrida, para manter a forma.

Se depender de autorização médica, o mestre pode voltar logo. "Ele se encontra num grau bem estável, em condições de disputar campeonatos", afirmou o homeopata Luiz Eduardo Andrade. Disse que ele está preparado, com remédios mais fortes, para atividades intensas, como campeonatos, ou para enfrentar crises da miastenia.

Já o presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, Pablyto Robert, desconfia que a retomada de Mequinho dê resultado. "Ele nunca deixou de ser um grande jogador, mas para brigar por títulos é difícil. Ele ficou muito tempo longe e a idade também é fator determinante no xadrez competitivo", aponta.

PLANOS

O primeiro passo de Mequinho este ano é conseguir um patrocínio de alguma cidade paulista para os Jogos Abertos do Interior. Ano passado, ficou em 3º lugar, por São Bernardo. A Secretaria de Esportes da cidade avisou que, por enquanto, não há nada programado sobre contratações para este ano.

Mequinho também aposta nas partidas simultâneas para se manter financeiramente. Seu desempenho é bom na categoria. "Não perco há 34 anos." A última participação foi em outubro, durante a Virada Esportiva, em São Paulo.

Por enquanto, o único compromisso acertado para 2010 será em março, em Caxias do Sul, durante a Festa da Uva. Apesar de não valer pontos para o ranking mundial, Mequinho pode jogar com grandes mestres, "entre eles, um da Ucrânia, que é campeão mundial de xadrez rápido".

O único enxadrista brasileiro que chegou a ser o terceiro melhor do mundo ainda não consegue definir uma data para sua volta definitiva. Mas mantém a esperança e se esforça para continuar com o raciocínio ativo. Questionado em quanto tempo percorria quatro quilômetros, Mequinho ainda não havia se preocupado em cronometrar sua corrida, praticada duas vezes por semana. Tratou, porém, de calcular um valor aproximado, por meio do tempo médio para a distância de 2,5 km. Chegou ao intervalo entre 16 e 18 minutos.




GRANDE MESTRE
Nome: Henrique Costa Mecking
Nascimento: em 1952, na cidade de Santa Cruz do Sul (RS)
Idade: 58 anos
Quando começou: aos 6 anos

Principais conquistas:
1959: Vice-campeão de São Lourenço do Sul (RS)
1964: Campeão gaúcho
1965: Campeão brasileiro
1967:Título de Mestre Internacional
1972: Título de Grande Mestre Internacional
1978: Terceiro melhor jogador de xadrez do mundo
2005: Segundo lugar no Torneio Zonal 2.4 da Fide
2006: Campeão invicto do Torneio de Lodi (Itália)
2010: Completa 34 anos de invencibilidade em partidas simultâneas no Brasil

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